Translate

sábado, 13 de abril de 2013

A História da Assembléia de Deus no Brasil: Rua Azusa e o Pentecostalismo Brasileiro

                                                                                                                                                                    
Resultado de imagem para daniel berg e gunnar vingren livro
 
Daniel Berg e Gunnar Vingren

Missionários suecos fundadores da Assembleia de Deus no Brasil

RUA AZUSA E O AVIVAMENTO E A TEOLOGIA PENTECOSTAL BRASILEIRA

Da experiência pentecostal em Los Angeles ao nascimento da Assembleia de Deus no Brasil

O movimento da Rua Azusa escreveu um dos capítulos mais significativos da história do cristianismo no século XX. Que não ficou apenas  em Los Angeles atravessou fronteiras e chegou ao Brasil?
Todo esse fenômeno Brasileiro, passa por uma complexa rede de pessoas, experiências espirituais, movimentos de avivamento, igrejas e missionários. Nesse processo aparecem nomes como William J. Seymour, William H. Durham, Daniel Berg e Gunnar Vingren.

A história brasileira, porém, não foi uma simples reprodução daquilo que aconteceu na Rua Azusa.

O pentecostalismo chegou ao Brasil, encontrou uma realidade religiosa, social e cultural própria e, nesse novo ambiente, desenvolveu características particulares.
Por isso, é possível estabelecer uma ponte histórica entre Azusa e Belém, mas não devemos transformar essa ponte em uma linha absolutamente simples e direta.
A Rua Azusa foi uma das matrizes importantes do pentecostalismo moderno. Belém do Pará tornou-se um dos grandes centros de desenvolvimento do pentecostalismo brasileiro.
E entre esses dois lugares existe uma história marcada por oração, Bíblia, controvérsias, experiências espirituais, conflitos doutrinários, perseguições, separações e, sobretudo, pela convicção daqueles primeiros pentecostais de que a obra do Espírito Santo continuava presente na Igreja.

DA RUA AZUSA PARA O MUNDO

O avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, a partir de 1906, tornou-se um dos principais centros de propagação do pentecostalismo moderno.
Sob a liderança de William J. Seymour, as reuniões enfatizavam oração, santidade, evangelização, batismo no Espírito Santo, dons espirituais e manifestação de línguas.
A importância histórica de Azusa não está apenas no que aconteceu dentro daquele pequeno edifício da Rua Azusa, 312, mas também na maneira como pessoas de diferentes lugares conheceram e levaram aquelas convicções para outras regiões.
Estudos acadêmicos sobre o pentecostalismo apontam justamente para essa rede de influência. Um artigo publicado pela PUC-SP destaca que William H. Durham, que havia sido influenciado pelo movimento de Azusa, tornou-se uma figura importante nessa cadeia de transmissão, e que de seu círculo saíram personagens ligados à expansão pentecostal, entre eles Daniel Berg e Gunnar Vingren.
Isso nos ajuda a compreender algo importante:
Avivamentos não atravessam fronteiras apenas por meio de instituições; atravessam fronteiras por meio de pessoas.

DANIEL BERG E GUNNAR VINGREN: DO CONTEXTO PENTECOSTAL À MISSÃO NO BRASIL

Daniel Berg e Gunnar Vingren eram suecos ligados à tradição batista e tiveram contato com o ambiente pentecostal nos Estados Unidos.
Ambos foram profundamente marcados pela doutrina do batismo no Espírito Santo e pela compreensão de que os dons espirituais descritos no Novo Testamento continuavam disponíveis à Igreja.
A influência de William H. Durham foi particularmente importante nesse processo. Durham havia sido alcançado pelo movimento pentecostal de Chicago, que por sua vez estava conectado ao ambiente de Azusa. Estudos históricos identificam essa rede de relações como um dos caminhos pelos quais o pentecostalismo chegou aos futuros pioneiros brasileiros.
Portanto, é mais preciso dizer que:
Berg e Vingren pertenciam a uma corrente pentecostal internacional que tinha entre suas principais referências históricas o movimento da Rua Azusa.
Isso é diferente de afirmar que simplesmente “Azusa enviou Berg e Vingren”.
A história é mais rica.
Eles não chegaram ao Brasil como representantes administrativos da Missão da Fé Apostólica de Los Angeles. Chegaram como missionários suecos, dentro de uma rede pentecostal que já havia ultrapassado as fronteiras norte-americanas.

19 DE NOVEMBRO DE 1910: O PENTECOSTALISMO CHEGA A BELÉM

“[...] Pouco tempo depois de Gunnar Vingren participar de uma convenção em Chicago (Rua Azuza), ele conheceu outro jovem sueco que se chamava Daniel Berg. Esse jovem também fora batizado com o Espírito Santo.
    Após uma ampla troca de informações, experiências e idéias, Daniel Berg e Gunnar Vingren descobriram que Deus os estavam guiando numa mesma direção, isto é, o Senhor desejava enviá-los com a mensagem do Evangelho à terras distantes, mas nenhum dos dois sabia exatamente para onde seriam enviados.
Algum tempo depois, Daniel Berg foi visitar o pastor Vingren em South Bend, Indiana (EUA). Durante aquela visita, quando participavam de uma reunião de oração, o Senhor lhes falou através de uma mensagem profética que eles deveriam partir para pregar o Evangelho e as bênçãos do Avivamento   Pentecostal.
O lugar tinha sido mencionado na profecia: Pará. Nenhum dos presentes conhecia aquela localidade. Após a oração, os dois jovens foram a uma biblioteca à procura de um mapa que lhes indicasse onde o Pará estava localizado. Foi quando descobriram que se tratava de um estado do norte do Brasil”. (Adaptado de “História das Assembléias de Deus, Emílio Conde – CPAD”).

No dia 19 de novembro de 1910, Daniel Berg e Gunnar Vingren chegaram a Belém do Pará.
Era uma cidade completamente diferente de Los Angeles.
Era outro país. Outra cultura. Outra realidade religiosa. Outro contexto social.
E é exatamente aqui que a história se torna fascinante.
Os dois missionários chegaram sem uma grande estrutura denominacional, sem recursos financeiros significativos e sem uma organização pentecostal brasileira esperando por eles.
Foram acolhidos pela Igreja Batista de Belém e passaram a colaborar com aquela comunidade.
A Assembleia de Deus Belém registra que os missionários chegaram ao Brasil em 19 de novembro de 1910, As igrejas existentes na época – Batista de Belém do Pará, Presbiteriana, Anglicana e Metodista.
Eles foram encaminhados à Igreja Batista, onde passaram a desenvolver suas primeiras atividades missionárias. 
A ironia histórica é impressionante:
A igreja que inicialmente acolheu os missionários seria justamente o lugar onde aconteceria o conflito que daria origem à primeira Assembleia de Deus brasileira.

O ESPÍRITO SANTO NO CENTRO DA CONTROVÉRSIA

Berg e Vingren começaram a ensinar uma compreensão diferente do batismo no Espírito Santo, deixando-os bastante incomodadas com a nova doutrina dos missionários, principalmente pelo motivo de alguns irmãos que se mostravam abertos ao ensino pentecostal enquanto outros não aceitava a nova doutrina, que era ensinada aos membros da Igreja Batista de Belém. 
  • A questão não era simplesmente emocional.
  • Era teológica.
  • A pergunta fundamental era:
  • A experiência descrita em Atos continua disponível à Igreja?
  • E junto dela surgiam outras perguntas:
  • O batismo no Espírito Santo é uma experiência atual?
  • Os dons espirituais continuam?
  • O falar em línguas possui lugar na Igreja contemporânea?
  • Deus continua curando sobrenaturalmente?
  • As experiências de Atos devem ser entendidas apenas como acontecimentos históricos ou também como manifestações possíveis na Igreja?

CELINA ALBUQUERQUE E O PRIMEIRO GRANDE MARCO PENTECOSTAL BRASILEIRO

Nesse contexto aparece uma personagem que não pode ser esquecida:
Celina Albuquerque.
Membro da Igreja Batista de Belém, Celina tornou-se uma das primeiras brasileiras associadas à experiência pentecostal que se desenvolvia entre os missionários.
As fontes históricas assembleianas registram que ela recebeu o batismo no Espírito Santo na casa localizada na Rua Siqueira Mendes, 67, em Belém, na madrugada do dia 18 de junho de 1911, foi a primeira crente a receber o batismo no Espírito Santo, o que não demorou a ocorrer também com outros irmãos.. A Assembleia de Deus Belém considera esse episódio um marco do início do movimento pentecostal brasileiro.
A importância de Celina não está apenas no fato de ter sido uma mulher envolvida no início do movimento.
Há aqui uma dimensão pneumatológica muito importante.
O Espírito Santo não estava sendo apresentado apenas como uma doutrina estudada nos livros. A pneumatologia estava sendo experimentada dentro de uma comunidade.
Isso nos lembra uma verdade bíblica: “E todos foram cheios do Espírito Santo...” Atos 2:4
O pentecostalismo brasileiro nasceu afirmando que essa promessa não pertencia apenas ao passado.

QUANDO A EXPERIÊNCIA SE TRANSFORMA EM CONFLITO DOUTRINÁRIO

A experiência pentecostal provocou uma reação dentro da comunidade batista.
Alguns aceitaram a mensagem, outros rejeitaram e a tensão aumentou.
É importante compreender o episódio historicamente sem transformar a narrativa em uma caricatura de “bons contra maus”.
Os batistas que se opuseram ao movimento estavam defendendo aquilo que compreendiam ser a doutrina correta da Igreja.
Os pentecostais, por sua vez, entendiam que a liderança estava rejeitando uma experiência bíblica que deveria permanecer disponível à Igreja.
O conflito, portanto, envolvia hermenêutica, pneumatologia, autoridade eclesiástica e identidade denominacional.
E foi exatamente nesse ponto que a história se rompeu.

A EXPULSÃO DOS MISSIONÁRIOS E A EXCLUSÃO DOS PENTECOSTAIS

O episódio ocorreu em 13 de junho de 1911, durante uma sessão extraordinária da Igreja Batista de Belém.
É importante fazer uma observação histórica.
Muitas narrativas assembleianas dizem que Berg, Vingren e outros foram “expulsos” da Igreja Batista.
O termo é compreensível e tornou-se tradicional.
Entretanto, os documentos e estudos históricos utilizam também termos como exclusão, desligamento ou corte da comunhão.
A chamada Ata nº 222 da Igreja Batista de Belém, referente à sessão extraordinária de 13 de junho de 1911, é frequentemente utilizada pelos historiadores para documentar o episódio.

Estudos que analisaram essa ata registram a exclusão de treze membros que haviam se manifestado favoravelmente ao ensino pentecostal, além da associação do episódio aos missionários Gunnar Vingren e Daniel Berg.
Existe, porém, uma diferença entre as fontes quanto ao número total de pessoas envolvidas.
Alguns relatos falam em 13 membros; outros mencionam 17, 18 ou 19 pessoas, dependendo da forma como são contabilizados missionários, crianças e pessoas desligadas posteriormente.
Por isso, o mais prudente é dizer:
A Ata nº 222 registra a exclusão de treze membros; outras fontes históricas apresentam números diferentes para o grupo total que deixou a igreja juntamente com os missionários.
Essa precisão é importante.
A história do avivamento não precisa de números aumentados para ser impressionante.
Os documentos já são suficientemente eloquentes.

O importante é relatar que o clima ficou tenso naquela comunidade, pois um número cada vez maior de membros curiosos visitava a residência de Berg e Vingren, onde realizavam reuniões de oração. Resultado: eles e mais os irmãos acabaram sendo desligados da Igreja Batista. Convictos e resolvidos a se organizar, fundaram a Missão de Fé Apostólica em 18 de junho de 1911, que mais tarde, em 1918, ficou conhecida como Assembleia de Deus.


UM DOCUMENTO HISTÓRICO IMPRESSIONANTE: A CARTA DE RAYMUNDO P. NOBRE

Aqui encontramos um dos documentos mais interessantes para compreender o clima daquela época.
Trata-se de uma carta atribuída a Raymundo P. Nobre, dirigente ligado à Igreja Batista de Belém, datada de 19 de junho de 1911, poucos dias depois da sessão que resultou na exclusão dos pentecostais.
A carta foi publicada em O Jornal Batista e posteriormente reproduzida e estudada por diferentes pesquisadores e historiadores.
Nela, Nobre descreve sua preocupação com o avanço do movimento e utiliza uma linguagem extremamente dura.
Em determinado trecho, escreveu:
“Esta doutrina diabólica ia se alastrando rapidamente...”
E acrescentou que temia que, se não houvesse uma reação, os batistas poderiam ficar sem igreja na capital.
Esse documento é extremamente importante porque nos permite ouvir a voz do outro lado do conflito.
Não estamos apenas diante de uma memória construída décadas depois pelos pentecostais.
Temos uma fonte produzida praticamente no momento dos acontecimentos.
A carta mostra que a controvérsia era real, profunda e considerada suficientemente grave pela liderança batista para justificar uma intervenção.

“Documento Histórico — A voz dos opositores ao movimento pentecostal”
👇


A “MURMURAÇÃO” E O CLIMA DA REUNIÃO

Os relatos históricos também descrevem o ambiente tenso daquela reunião.
Em uma narrativa histórica baseada em Emílio Conde, é relatado que, enquanto Raimundo Nobre atacava os partidários do movimento pentecostal, o grupo começou a reagir e houve manifestações no ambiente.
O relato registra que, naquele momento, houve manifestação de línguas e intensa tensão na reunião.
Aqui é importante separar história de interpretação teológica.
Historicamente, podemos afirmar que houve forte tensão, oposição e manifestações que os diferentes grupos interpretaram de maneiras distintas.
Teologicamente, os pentecostais entenderam aqueles acontecimentos como manifestação do Espírito Santo.
Os opositores interpretaram os mesmos acontecimentos como expressão de erro doutrinário.
É justamente aí que a história se transforma em pneumatologia.
Porque a pergunta deixa de ser apenas:
“O que aconteceu?”
E passa a ser:
“Como devemos interpretar o que aconteceu?”
Essa é uma pergunta teológica.

UMA FRASE QUE REVELA O CONFLITO

Outro registro atribuído ao ambiente da controvérsia apresenta a preocupação de Raimundo Nobre de que a doutrina pentecostal estaria produzindo dúvidas e inquietações entre os membros.
Em outro relato histórico, aparece a afirmação de que seria necessário tomar uma posição porque aquela doutrina poderia comprometer a identidade batista.
Isso nos permite compreender que o conflito não era apenas sobre manifestações espirituais.
Era também uma disputa sobre:
“Que tipo de igreja devemos ser?”
Para os batistas, havia uma identidade doutrinária a preservar.
Para os pentecostais, havia uma experiência bíblica que não poderia ser negada.
A ruptura tornou-se inevitável.

18 DE JUNHO DE 1911: NASCE A MISSÃO DA FÉ APOSTÓLICA

Poucos dias depois da exclusão, os pentecostais passaram a se reunir na residência de Celina Albuquerque, na Rua Siqueira Mendes, em Belém.
No dia 18 de junho de 1911, aquele pequeno grupo organizou uma nova comunidade.
Seu primeiro nome foi:
Missão da Fé Apostólica.
A própria Assembleia de Deus Belém reconhece esse momento como o nascimento do movimento que posteriormente receberia o nome de Assembleia de Deus.
É impossível não perceber aqui uma conexão histórica com a própria Rua Azusa.
A Missão da Fé Apostólica era também o nome utilizado pelo movimento associado a William Seymour em Los Angeles.
Mas é importante não confundir as duas organizações.
A comunidade brasileira não era uma filial administrativa da missão de Seymour.
Havia, contudo, uma linguagem, uma tradição e uma identidade pentecostal compartilhadas.

DE MISSÃO DA FÉ APOSTÓLICA À ASSEMBLEIA DE DEUS

A denominação brasileira passou a utilizar oficialmente o nome Assembleia de Deus em 1918.
A mudança de nome ocorreu anos depois do início da comunidade.
Esse fato também demonstra que o movimento não nasceu pronto.
Ele foi sendo organizado progressivamente.
Primeiro veio a experiência.
Depois, a comunidade.
Depois, a estrutura.
Depois, a organização denominacional.
Esse processo é importante para compreendermos a própria formação da identidade assembleiana.
A história oficial da Assembleia de Deus Belém registra que o nome “Assembleia de Deus” foi incorporado em 1918.

O QUE A RUA AZUSA TEM A VER COM A ASSEMBLEIA DE DEUS?

Essa é uma das perguntas mais importantes deste estudo.
A resposta precisa evitar dois extremos.
Primeiro extremo:
Dizer que a Assembleia de Deus brasileira simplesmente nasceu da Rua Azusa.
Isso simplifica demais a história.
Segundo extremo:
Dizer que a Rua Azusa não teve qualquer relação com a formação do pentecostalismo brasileiro.
Isso também não corresponde à historiografia.

A relação é melhor compreendida como uma rede de transmissão pentecostal.
Azusa foi um dos grandes centros do avivamento pentecostal moderno.
William H. Durham tornou-se uma ponte importante entre o movimento de Azusa e outros grupos pentecostais.
Daniel Berg e Gunnar Vingren foram influenciados pelo ambiente pentecostal norte-americano.
E eles chegaram ao Brasil trazendo uma mensagem centrada no batismo no Espírito Santo, dons espirituais, cura divina e evangelização.
Pesquisas acadêmicas identificam justamente essa conexão entre Azusa, Durham, Berg e Vingren.
Portanto:
Azusa não foi a Assembleia de Deus brasileira. Mas Azusa faz parte da história que ajudou a formar o ambiente pentecostal do qual surgiria a Assembleia de Deus.

A FORMAÇÃO DA PNEUMATOLOGIA PENTECOSTAL BRASILEIRA

Aqui chegamos ao coração teológico deste artigo.
A Assembleia de Deus brasileira desenvolveu uma pneumatologia fortemente marcada por cinco elementos:
1. A pessoa do Espírito Santo
O Espírito Santo não é tratado como mera força ou energia divina.
Ele é compreendido como Pessoa divina, atuante na Igreja e na vida do crente.
2. O batismo no Espírito Santo
A tradição pentecostal clássica brasileira enfatizou o batismo no Espírito Santo como uma experiência de revestimento de poder para a vida e o testemunho cristão.
3. O falar em línguas
Dentro da tradição assembleiana clássica, o falar em línguas passou a ocupar lugar importante como evidência inicial associada ao batismo no Espírito Santo.
4. Os dons espirituais
Dons como profecia, cura, línguas e interpretação passaram a ocupar lugar significativo na espiritualidade pentecostal.
5. A missão
A experiência do Espírito nunca deveria ser reduzida à experiência pessoal.
O Espírito Santo capacita a Igreja para testemunhar.
“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas...” Atos 1:8
Esse texto ajuda a estabelecer um princípio fundamental:
Pneumatologia bíblica não termina na experiência; ela conduz à missão.

O ESPÍRITO SANTO ENTRE EXPERIÊNCIA E DOUTRINA

Um dos maiores desafios do pentecostalismo sempre foi equilibrar experiência e doutrina.
A experiência sem Escritura pode tornar-se subjetivismo.
A doutrina sem experiência pode transformar-se em mera formalidade.
A perspectiva pentecostal clássica brasileira procurou afirmar que a experiência do Espírito deveria permanecer submetida à autoridade das Escrituras.
Paulo não disse: “Não examineis nada.”
Pelo contrário: 
“Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem.”
1 Tessalonicenses 5:19–21
Esse texto é extraordinariamente importante para uma pneumatologia madura.
Não extinguir. Não desprezar. Mas também examinar.

UMA PNEUMATOLOGIA QUE NASCEU EM MEIO À CONTROVÉRSIA

É interessante perceber que a pneumatologia pentecostal brasileira não se desenvolveu em um ambiente neutro. 
Ela nasceu em meio ao debate. Nasceu em meio à oposição. Nasceu em meio a perguntas.
Nasceu em meio a conflitos sobre interpretação bíblica.
E talvez isso explique por que a questão do Espírito Santo assumiu posição tão central na identidade assembleiana.
O pentecostal precisava responder:
“Por que vocês acreditam nisso?”
E a resposta precisava passar pelas Escrituras.
Atos 2. Atos 8. Atos 10. Atos 19. 1 Coríntios 12–14. Efésios 5. 1 Tessalonicenses 5.
Assim, pouco a pouco, a experiência pentecostal foi acompanhada pela necessidade de construir uma teologia.

O PENTECOSTALISMO BRASILEIRO NÃO FOI UMA CÓPIA DE AZUSA

Esse ponto merece destaque.
Quando o pentecostalismo chegou ao Brasil, ele encontrou uma sociedade profundamente marcada pelo catolicismo popular, por tradições religiosas diversas e por uma realidade social muito diferente daquela encontrada nos Estados Unidos.
Pesquisadores da PUC-SP observam que o pentecostalismo brasileiro assumiu características próprias e que seria anacrônico imaginar uma continuidade absolutamente linear entre a Rua Azusa e as formas posteriores do pentecostalismo brasileiro.
Isso é fundamental.
O Espírito Santo não produz uniformidade cultural.
A mesma mensagem pode atravessar culturas e adquirir formas históricas diferentes.
Azusa foi Azusa. Belém foi Belém.
E a Assembleia de Deus brasileira tornou-se uma expressão própria do pentecostalismo.

A PRIMEIRA GERAÇÃO ASSEMBLEIANA E A CENTRALIDADE DO ESPÍRITO

A primeira geração assembleiana desenvolveu uma espiritualidade marcada por quatro grandes convicções:
Jesus salva. Jesus cura. Jesus batiza com o Espírito Santo. Jesus voltará.
Essa estrutura simples tornou-se profundamente poderosa.
  • A salvação apontava para a cruz.
  • A cura apontava para a ação misericordiosa de Deus.
  • O batismo no Espírito apontava para poder e testemunho.
  • A esperança da volta de Cristo apontava para a escatologia.
Assim, a pneumatologia não ficou isolada.
Ela estava ligada à cristologia, à soteriologia, à eclesiologia e à escatologia.

O ESPÍRITO SANTO E A MISSÃO DA IGREJA

Atos 1:8 oferece uma chave hermenêutica indispensável:
“E ser-me-eis testemunhas...”
O poder do Espírito possui uma finalidade missionária.
Esse princípio ajuda a compreender o crescimento inicial da Assembleia de Deus.
  • A experiência pentecostal produziu oração.
  • A oração produziu evangelização.
  • A evangelização produziu comunidades.
  • As comunidades produziram novos líderes.
  • E novos líderes levaram a mensagem para outras regiões.
A pneumatologia tornou-se, portanto, uma força missionária.

A ASSEMBLEIA DE DEUS E A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE BRASILEIRA

Outro aspecto importante é que, apesar da liderança inicial dos missionários suecos, o movimento foi progressivamente adquirindo liderança brasileira.
A própria história da CGADB registra que, em 1930, na primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, houve uma transição importante na liderança, com a transferência da responsabilidade das Assembleias para os pastores brasileiros.
Esse processo demonstra algo importante:
A Assembleia de Deus começou com missionários estrangeiros, mas não permaneceu estrangeira.
Ela tornou-se brasileira.
Sua linguagem, sua liturgia, sua hinologia, seus métodos evangelísticos, sua organização e sua teologia prática foram sendo moldados dentro da realidade brasileira.

UMA LIÇÃO SOBRE AVIVAMENTO

O que podemos aprender com tudo isso?

A primeira lição é que um avivamento não começa necessariamente com grandes estruturas.
Os primeiros pentecostais brasileiros não tinham grandes templos.
Tinham oração. Tinham Bíblia. Tinham convicção. Tinham disposição para testemunhar.

A segunda lição é que avivamento verdadeiro precisa produzir missão.
O Espírito Santo não foi dado para criar espectadores espirituais.
Foi dado para capacitar testemunhas.

A terceira lição é que experiência espiritual precisa ser acompanhada de discernimento.
O mesmo Paulo que ensinou:
“Não extingais o Espírito”
também ensinou:
“Examinai tudo.”

A quarta lição é que a história da Igreja precisa ser estudada com honestidade.
Não devemos esconder os conflitos.
Não precisamos transformar os batistas daquele período em vilões.
Também não precisamos transformar os primeiros pentecostais em personagens sem limitações humanas.
A história é mais profunda quando conseguimos reconhecer que homens e mulheres sinceros podem interpretar uma mesma experiência de maneiras diferentes.

CONTINUÍSTAS E CESSACIONISTAS: UMA QUESTÃO QUE PERMANECE

A discussão iniciada naquele contexto histórico possui uma continuidade no debate teológico contemporâneo.
De um lado estão os continuístas, que sustentam que os dons espirituais apresentados no Novo Testamento continuam disponíveis à Igreja.
Do outro, os cessacionistas, que entendem que determinados dons ou manifestações extraordinárias tinham uma função vinculada ao período apostólico e não permanecem necessariamente da mesma maneira na Igreja.
É importante afirmar:
A diferença não é simplesmente entre “crer no Espírito Santo” e “não crer no Espírito Santo”.
Tanto continuístas quanto cessacionistas afirmam a realidade do Espírito Santo.
A divergência está principalmente na interpretação da continuidade dos dons e manifestações extraordinárias.
Para uma teologia pentecostal, essa discussão deve ser enfrentada com Bíblia aberta, não com preconceito.
E para uma teologia acadêmica, é necessário ouvir os argumentos dos dois lados.

Uma pneumatologia madura precisa afirmar simultaneamente:

O Espírito Santo é Pessoa. O Espírito Santo é Deus. O Espírito Santo atua na regeneração.
O Espírito Santo santifica. O Espírito Santo distribui dons. O Espírito Santo capacita para o serviço. O Espírito Santo conduz a Igreja à missão. O Espírito Santo glorifica Cristo.
Por isso, o verdadeiro centro da pneumatologia cristã não é o homem que recebe o dom.
É o Deus que concede o dom.
Não é a experiência em si.
É Cristo, para quem o Espírito aponta.
“Ele me glorificará...” João 16:14
Essa talvez seja uma das maiores salvaguardas contra os excessos de qualquer movimento espiritual.
Onde o Espírito Santo verdadeiramente atua, Cristo não é diminuído; Cristo é exaltado.

CONCLUSÃO — DA RUA AZUSA À RUA SIQUEIRA MENDES

Quando olhamos para a história da Rua Azusa e depois para a pequena reunião realizada na Rua Siqueira Mendes, em Belém, encontramos duas cenas separadas por milhares de quilômetros.
Mas encontramos também uma mesma pergunta:
O Espírito Santo continua operando na Igreja?
Os pentecostais responderam afirmativamente.
E fizeram isso não apenas com argumentos teológicos, mas com uma vida de oração, evangelização e expectativa espiritual.
A história posterior demonstraria que aquela pequena comunidade de Belém não permaneceria pequena.
A partir daquele núcleo surgiria uma das maiores expressões do protestantismo evangélico brasileiro.
A Assembleia de Deus cresceria. 
Chegaria a outras regiões.
Formaria pastores.
Enviaria missionários.
Construiria templos.
Criaria escolas bíblicas.
Publicaria literatura.
Formaria uma tradição teológica.
E colocaria a pneumatologia no centro de sua identidade.
Mas há uma advertência que permanece necessária.
A Rua Azusa não pode substituir o Pentecostes.
E a história da Assembleia de Deus não pode substituir o livro de Atos.
Nenhuma experiência histórica possui autoridade superior às Escrituras.
Avivamento precisa retornar à Bíblia.
Experiência precisa ser examinada.
Dons precisam servir à edificação.
Poder precisa produzir testemunho.
E o Espírito Santo precisa conduzir a Igreja à centralidade de Cristo.
A grande pergunta para a Igreja do século XXI talvez não seja simplesmente:
“Queremos outro avivamento?”
Mas:
“Estamos dispostos a permitir que o Espírito Santo nos conduza novamente à Palavra, à santidade, à oração, à missão e à centralidade de Cristo?”
Porque, no final, o propósito do Espírito nunca foi produzir apenas uma história interessante.
  • Foi formar uma Igreja viva.
  • Uma Igreja santa.
  • Uma Igreja missionária.
  • Uma Igreja cheia da Palavra.
  • Uma Igreja cheia do Espírito.
E uma Igreja que continua anunciando:
“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente.”

DOCUMENTO HISTÓRICO — PARA LEITURA E PESQUISA
Para que o leitor possa perceber a dimensão histórica do episódio, vale registrar novamente um pequeno trecho da carta atribuída a Raymundo P. Nobre, datada de 19 de junho de 1911, poucos dias depois da sessão que excluiu os adeptos do movimento pentecostal:
“Esta doutrina diabólica ia se alastrando rapidamente...”
O documento prossegue relatando que Nobre temia que, caso não houvesse uma reação da liderança batista, eles poderiam ficar sem a igreja na capital. A carta também registra a convocação da sessão extraordinária de 13 de junho e informa que os adeptos da nova doutrina foram “cortados” da comunhão.
Esse documento deve ser lido historicamente.
A expressão utilizada por Nobre não deve ser apresentada pelo pesquisador como conclusão teológica atual, mas como testemunho da posição de uma liderança batista diante do movimento pentecostal em 1911.
Essa distinção é fundamental para quem deseja fazer história com responsabilidade.
REFLEXÃO FINAL
A história da Rua Azusa nos lembra que grandes movimentos podem começar em lugares pequenos.
A história de Belém nos lembra que uma pequena comunidade pode transformar a história religiosa de uma nação.
E a pneumatologia nos lembra que o Espírito Santo não foi dado para produzir apenas experiências extraordinárias, mas para conduzir a Igreja à verdade, à santidade, à missão e à glorificação de Jesus Cristo.
Do fogo de Azusa às orações de Belém, existe uma história que precisa ser estudada.
Não apenas para sabermos como o pentecostalismo nasceu, mas para perguntarmos:
O que significa ser uma Igreja cheia do Espírito Santo hoje?

Fonte: CPAD - Casa Publicadora das Assembléias de Deus (www.cpad.com.br)

Por Pr. Walker H Souza – proclamando a verdade da Palavra que transforma o entendimento. | Verdades Cristã

"Cristianismo sem verdade vira religiosidade. Verdade sem Cristo vira conhecimento vazio. O chamado apostólico continua sendo o mesmo: conhecer a Verdade, amar a Verdade e viver para a glória de Deus.

Se este conteúdo foi útil, para você, deixe seu comentário, inscreva-se, compartilha e dê um like Abaixo.  


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts populares

Marcadores

95 Teses A GRAÇA ABOLIU A LEI AD Brás AMOR FRATERNAL Abadom Adoração Adão Agostinho Amor Amor de Pai Ansiedades Antinomismo Apocalipse 9. Estudo completo sobre anjos presos Apologistas Apologética Cristã Apostólicos Aprendizado Arianismo Arrependimento Arvore do Bem e do Mal Belém Benção Biblioteca Bíblia CANAL YOUTUBE Catolicismo Cegou o Entendimento Celebração Centralidade da Cruz Cipriano Colérico Combate às Heresias Comunhão Conectados a Cristo no Mundo Digital Conselho Divino Constantino Consumismo Coração Costumes Crescimento Espiritual Cristianismo Bíblico Cristianismo Primitivo Cristologia Cristão e o Natal Crisóstomo Cruz Culto cristão Cultura DIDAQUÉ Daniel Berg Desobediência Deus Discernimento Discernimento Espiritual Discipulado Dízimos e ofertas Ebd Eclesiástica Edificação Ensino Era Digital Era Pós Apostólica Escândalo moral Papas Esperança Esperança Inabalável em Deus Espírito Santo Estudo Estudo Bíblicos Estudos Bíblicos Eu e o pai Somos um Eusébio de Cesáreia Eva Evangelho Evangelho Verdadeiro Falso evangelho Falsos Ensinos Familiar Família Filhos de Deus Fleumático Fraternal Fruto Proibido Fundamentos Fé Gazofilácio Genealogia do Conhecimento Gnosticismo Gunnar Vigren Heresias Antigas Historia História da assembleia de Deus História da igreja Humilhação Igreja Igreja Organismo ou Instituição Igreja Primitiva Inabalável. Deus Incondicional Instituto Teológico Inácio de Antioquia Irineu de Lyon Jerônimo Jesus Cristo João João 20 Justificaçã Justino O Mártir Legalismo Lei Cerimonial Lei Moral Lei de Deus Lei e Graça Lenço dobrado Literatura Cristã Antiga Livro Livros Mandamento Mandamentos Martinho Lutero Melancólico Mercantilização da Fé Ministério Missionários Missão de Fé Apostólica Mordomia Mulher virtuosa Mundo Digital Novo Testamento O FUTURO DA IGREJA Obediência Oferta Origem termo pai Ortodoxia Cristã Orígenes Os Quatro Anjos do Eufrates Pai Pai para toda Vida Pais Apostólicos Pais da igreja Papias Pastor Pastoral Patrística Patrística Cristã Paz Pedro Perseverança Poder Temporal Polemista Policarpo Pr. Walker Souza Primeiro Papa Prosperidade Prosperidade Real Protestantismo Provação Pós-Nicenos Qual Igreja Está Mais Próxima dos Apóstolos Queda Reforma Refúgio Reino de Deus Renuncia Ressureição Resumo Retorno Glorioso Reveladas Romanos 1.17 Sanguíneo Santidade Santificação Serie 30 dias Dificuldades no Ensino Sermão Serpente Sincretismo Sol Invicto Sudário Sã Doutrina Série Papado em Xeque TERMO PAI: BÍBLIA OU TRADIÇÃO Teologia Teologia Bíblica Teologia da Prosperidade Termo Pai Tertuliano de Cartago Tipos de Temperamento Torre de Babel Tradição Transformação Transição da Igreja Trento concilio Tribunal de Cristo Trindade Unidade Unigênito União Valores Cristãos Vendas Verdade Verdade Revelada Verdadeira historia do natal Verdadeiro Verdades Verdades Cristãs Vida Vida em Familia Vinculo da Perfeição Vinda de Cristo Volta de Jesus Votos adoração a Deus angelologia anjos anjos caídos anomia espiritual antropocentrismo arminianismo autoridade batalha espiritual calvinismo caráter casa de Deus casamento cristão cegueira espiritual chamado ministerial cisma constância crise da igreja demônios demônios e a segunda vinda de Cristo. despertamento dons espirituais doutrina cristã doutrina dos apóstolos engenharia social ensino bíblico escatologia escatologia bíblica estudo bíblico família cristã fidelidade cristã filosofia cristã fim dos tempos formação de líderes fé cristã galardões igreja moderna igreja verdadeira intentionis intentrix juízo de Cristo juízo de Deus juízo divino lar cristão liderança cristã louvor e adoração líderes manipulação da consciência maturidade mulher cristã mulher sábia mundo espiritual neopentecostalismo obras cristãs ocidente palavra de Deus pentecostalismo profecia propósito provérbios 31 púlpito recompensas eternas reverência a Deus sabedoria bíblica salvação pela graça sexta trombeta sexto selo soberania de Deus temor do Senhor teologia cristã ultimos dias unidos verdade absoluta vida cristã vocação voz profética Ètica pastoral Éden

Curta nossa pagina

Curta nossa Fanpage