livro Genealogia do Conhecimento

lei e graça

Lei e Graça – Uma Harmonia Bíblica


1. Introdução: Paulo, a Lei e a Graça

Ao escrever aos romanos, Paulo afirma:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Romanos 6:14)

Este versículo é frequentemente mal compreendido. Muitos interpretam que estar “debaixo da graça” significa que não precisamos mais guardar os mandamentos de Deus. Mas será isso o que Paulo quis dizer? Certamente não.

Confirmando a Lei pela Fé

O próprio apóstolo responde:

“Anulamos, pois, a Lei pela fé? De modo nenhum; antes, estabelecemos a Lei.” (Romanos 3:31)

Ou seja, a fé em Cristo não abole a Lei, mas a confirma em sua essência. A salvação é pela graça, mas a santificação implica obediência.

Não estar debaixo da lei significa: LEI DO PECADO E A LEI CERIMONIAL.


2. A Lei no Contexto da Conversão

Paulo escreve a crentes, e não a ímpios. Em Romanos 6, ele aborda a realidade da conversão:

“...nosso velho homem foi com ele crucificado... para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6:6)
“Considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.” (Romanos 6:11)

A consequência prática da graça é uma vida que rompe com o pecado, e pecado, conforme João nos lembra, é transgressão da Lei (1 João 3:4).

Logo, a graça não é licença para pecar, mas poder para viver em santidade.


3. O Significado de "Não Estar Debaixo da Lei"

Paulo afirma que os crentes não estão mais debaixo da Lei, isto é: 

  • Não estão mais sob sua condenação, pois Cristo pagou a penalidade do pecado.

  • Não vivem segundo a natureza carnal, mas segundo o Espírito, que os capacita a obedecer.

“Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Lei.” (Gálatas 5:18)

Quem está guiado pelo Espírito não vive no pecado, logo não está mais sob a condenação da Lei.


4. Distinção entre Leis: Moral x Cerimonial

Um ponto central da compreensão bíblica da Lei é distinguir os diferentes tipos de leis:

a) Lei Moral (os Dez Mandamentos)

  • Escrita pelo próprio Deus (Êxodo 31:18)

  • É eterna, universal e espiritual (Romanos 7:12-14)

  • Aponta para o caráter de Deus

  • É confirmada por Jesus (Mateus 5:17-19) e pelos apóstolos (Efésios 6:2; 1 Timóteo 1:8)

b) Lei Cerimonial (sacrifícios, festas, ordenanças rituais)

  • Escrita por Moisés, conforme instrução divina (Deuteronômio 31:24-26)

  • Era sombra das coisas futuras (Colossenses 2:16-17)

  • Foi abolida em Cristo (Efésios 2:15) porque Ele é o cumprimento dessas figuras (Hebreus 10:1-10)


5. Textos Mal Interpretados

Vamos observar três passagens frequentemente mal interpretadas:

• Gálatas 3:13 – “Cristo nos resgatou da maldição da Lei...”

A maldição aqui não é a Lei em si, mas a maldição da desobediência, que recai sobre os transgressores (cf. Deuteronômio 27 e 28). Cristo nos redimiu da maldição, não da obediência.

• Efésios 2:15 – “Aboliu, na Sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças...”

Paulo se refere às ordenanças cerimoniais que separavam judeus e gentios, e não ao Decálogo. A cruz removeu a barreira ritual, não a moral.

• Colossenses 2:16-17 – “...ninguém vos julgue... por causa de sábados...”

Esses “sábados” não se referem ao sétimo dia da criação (Êxodo 20:8-11), mas aos sábados cerimoniais, vinculados a festas anuais judaicas (Levítico 23).


6. Confirmando a Lei Moral no Novo Testamento

A Nova Aliança confirma e fortalece a Lei Moral:

  • Romanos 7:7 – “Eu não conheceria o pecado senão pela Lei...”

  • Romanos 7:12 – “A Lei é santa, justa e boa.”

  • 1 Timóteo 1:8 – “A Lei é boa, se usada legitimamente.”

  • Mateus 5:17-19 – Jesus não veio abolir, mas cumprir e ensinar a Lei.


7. Conclusão: A Graça nos Ensina a Obedecer

“Porque a graça de Deus se manifestou... ensinando-nos que, renunciando à impiedade... vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa.” (Tito 2:11-12)

A Lei revela o pecado. A graça nos salva do pecado. E o Espírito Santo nos capacita a viver em novidade de vida, conforme os mandamentos de Deus.


Apelo Pastoral

Não se deixe confundir:

  • A salvação é pela graça mediante a fé, e não pelas obras da Lei.

  • Mas a evidência da salvação é uma vida em obediência amorosa, não em rebelião.

Como disse João:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos.” (1 João 5:3)



A Lei e o Evangelho: Harmonia entre Justiça e Graça

1. O Erro dos Judeus e a Ilusão do Cristianismo Moderno

Quando os judeus rejeitaram a Cristo, rejeitaram o fundamento de sua própria fé. De modo semelhante, o mundo cristão contemporâneo, que afirma crer em Cristo, mas despreza a Lei de Deus, incorre num erro equivalente. Os que professam apegar-se a Cristo, concentrando nEle suas esperanças, mas ao mesmo tempo rejeitam a Lei Moral e as profecias, não se encontram em posição mais segura do que os judeus incrédulos.

Como podem chamar os pecadores ao arrependimento se são incapazes de definir do que devem se arrepender? O pecador, ao ser exortado a abandonar o pecado, pode perguntar legitimamente:

“O que é pecado?”

A única resposta correta é bíblica:

“Pecado é a transgressão da Lei.” (1 João 3:4)

E Paulo complementa:

“...eu não conheceria o pecado, não fosse pela Lei.” (Romanos 7:7)

Portanto, somente aqueles que reconhecem a vigência da Lei Moral podem compreender e explicar adequadamente a natureza da expiação.


2. Cristo: Mediador e Cumpridor da Lei

Cristo veio ao mundo como o único mediador entre Deus e os homens, com o objetivo de reconciliar o homem com Deus, conduzindo-o à obediência à Sua Lei. A Lei, por si só, não possui poder para perdoar pecados. A função da Lei é revelar o pecado e a santidade de Deus. Só Jesus pôde pagar a dívida do transgressor, com Seu sangue inocente. Ele cumpriu tanto a justiça da Lei quanto as figuras proféticas do sistema cerimonial.

Mas o fato de que Cristo pagou a dívida do pecador não lhe dá licença para continuar na transgressão da Lei. O perdão recebido deve produzir uma vida transformada e obediente.


3. A Antiguidade e Permanência da Lei Moral

A Lei de Deus precede a criação do homem, pois, sem Lei, não haveria pecado — e, portanto, Adão não poderia ter pecado. Após a queda, os princípios da Lei não foram alterados, mas apresentados de forma mais acessível ao ser humano decaído. Por isso, o próprio Cristo, em conselho com o Pai, instituiu o sistema de sacrifícios, como representação da futura obra redentora do Messias.


4. A Função Substitutiva do Sistema Sacrificial

Nos tempos antigos, os pecados do povo eram simbolicamente transferidos ao sacerdote oficiante, que atuava como mediador. Contudo, ele mesmo era pecador e não podia oferecer sua vida como expiação. Assim, um cordeiro sem mácula era sacrificado, representando Cristo, o Cordeiro de Deus. O sangue da vítima inocente apontava, em figura, para o sangue de Cristo, único meio de perdão verdadeiro.

Desse modo, o pecador, ao oferecer o sacrifício pela fé, olhava profeticamente para a cruz.


5. A Lei Cerimonial e o Propósito Redentor

Se Adão não tivesse transgredido a Lei Moral, não haveria necessidade da Lei Cerimonial. O evangelho foi revelado já no Éden, na promessa de que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente (Gênesis 3:15). Esse evangelho foi transmitido de geração em geração — de Adão a Noé, de Abraão a Moisés — sempre apontando para o Redentor.

Durante milênios, os homens aprenderam com os anjos e com o próprio Cristo, por meio das cerimônias, sacrifícios e preceitos. Em cada cordeiro imolado, os fiéis contemplavam, pela fé, o Messias vindouro.

“Disse Jesus: ‘Se crêsseis em Moisés, creríeis em Mim; porque de Mim escreveu ele.’” (João 5:46)


6. Caim e Abel: Dois Caminhos diante de Deus

Os dois filhos de Adão ilustram os dois caminhos que a humanidade ainda hoje escolhe:

  • Abel ofereceu, com fé, um cordeiro, reconhecendo a necessidade de expiação pelo sangue — compreendia o Evangelho e a Lei.

  • Caim, por outro lado, recusou o símbolo do sacrifício, oferecendo o fruto de suas obras. Seu culto foi desprovido de sangue e de fé.

Ambos ouviram o mesmo evangelho, mas para Abel foi salvação; para Caim, condenação.


7. Cristo: Cumprimento da Lei e dos Tipos

Em Sua vida e morte, Cristo cumpriu todas as profecias e foi o substantivo de todos os tipos e sombras da Lei Cerimonial. Ele guardou perfeitamente a Lei Moral, exaltando-a com Sua vida justa.

“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir.” (Mateus 5:17)

Todo o sistema cerimonial — sacrifícios, festas, ordenanças — teve sua plena realização em Cristo, que foi o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Por isso, os que aceitavam a Cristo como o Cordeiro prefigurado compreendiam que o sistema cerimonial deveria ser abolido, mas a Lei Moral permanecia firme.


8. Conclusão: Evangelho sem Lei é outro evangelho

Um evangelho que despreza a Lei de Deus é um evangelho sem fundamento moral, incapaz de produzir verdadeira conversão. A graça que perdoa também transforma. E a fé salvadora conduz à obediência.

Como afirmou o salmista:

“A Lei do Senhor é perfeita e restaura a alma...” (Salmo 19:7)

E como afirmou João:

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos.” (1 João 2:3)


 

LEI E GRAÇA: UMA VISÃO REFORMADA

I. Estamos sob a Lei ou sob a Graça?

  • A tensão entre “lei” e “graça” tem causado confusão doutrinária ao longo da história da igreja.

  • Leitura isolada de textos como Gálatas 2.16 e Romanos 6.14 pode levar ao erro antinomiano — a negação da vigência da lei moral.

  • O outro extremo é o legalismo (ou neonomismo), que reduz a graça à mera performance moral.

  • A Reforma Protestante combateu ambos os erros com a doutrina da sola gratia — a salvação somente pela graça.

  • O dispensacionalismo, surgido no século XIX, influenciou a dissociação entre Antigo e Novo Testamento, apresentando a lei como um caminho de salvação antigo e ultrapassado.

  • Em reação, teólogos como Karl Barth enfatizaram a continuidade entre lei e evangelho, correndo o risco de um “novo moralismo”.

  • Éticas relativistas (ex.: ética situacional dos anos 60) banalizaram a lei ao substituir princípios objetivos pelo subjetivismo do "amor", resultando em distorções teológicas e morais.

II. O Uso da Lei: Pacto das Obras e Pacto da Graça

  • A teologia pactual reformada distingue dois grandes pactos:

    • Pacto das Obras: vigente antes da queda; prometia vida mediante obediência perfeita (cf. Gênesis 2.17).

    • Pacto da Graça: instituído após a queda, com Cristo como fiador, cumprindo as exigências do primeiro pacto em lugar do pecador (cf. Romanos 5.12–21).

  • A lei estava presente antes da queda (Gênesis 1.28; 2.17), embutida no coração humano e expressando os padrões de Deus para a criação.

  • A obediência era o meio de manter a bênção pactual; a desobediência resultava na maldição.

  • A função da lei era, e continua sendo, revelar a vontade de Deus.

III. De que Lei estamos falando?

  • A Confissão de Fé de Westminster (CFW, cap. 19) distingue três tipos de lei:

    • Civil: aplicada ao Israel teocrático (não é mais normativa, mas ensina princípios de justiça).

    • Cerimonial: apontava para Cristo e foi cumprida em sua totalidade (cf. Hebreus 10.1–10).

    • Moral: expressa os deveres imutáveis do ser humano para com Deus (cf. Êxodo 20), válida para todas as épocas.

  • Aplicações:

    • Não estamos sob a lei civil nem cerimonial, pois foram temporárias e cumpridas em Cristo.

    • Não estamos sob a condenação da lei moral, se estamos em Cristo.

    • Mas ainda estamos sob a autoridade da lei moral, como expressão da vontade de Deus para nossa santificação (João 14.15).

IV. Os Três Usos da Lei

  1. Usus Theologicus (Uso Teológico ou Punitivo)

    • A lei revela o pecado e conduz o pecador à graça (cf. Romanos 3.20; 5.20; Gálatas 3.24).

    • Este é o "ministério da morte" (2 Co 3.7) para os não regenerados, mas também é o primeiro passo rumo à salvação.

    • A função condenatória da lei mostra a incapacidade do homem natural em agradar a Deus por si mesmo.

  2. Usus Civilis (Uso Civil)

    • A lei restringe o mal na sociedade, garantindo a ordem e segurança social (cf. 1 Timóteo 1.9–10).

    • Atua como freio externo, sem regenerar o coração.

    • Serve de aio, conduzindo os eleitos ainda não regenerados à consciência de sua necessidade de Cristo.

  3. Usus Didacticus (Uso Didático ou Normativo)

    • Dirigido exclusivamente aos crentes regenerados.

    • A lei é prazerosa, desejável e orientadora para o crente (cf. Salmos 19 e 119).

    • Não como condenação, mas como expressão da vontade do Pai.

    • A lei, escrita no coração (cf. Jeremias 31.33), é reforçada pela Palavra revelada.

    • Exorta, direciona e sustenta o crescimento na santidade.

V. Cristo e a Lei

  • Cristo não aboliu a lei, mas a cumpriu perfeitamente (Mateus 5.17–19).

  • Ele satisfez a lei:

    • Cerimonial: como Cordeiro de Deus.

    • Civil: como Rei e Legislador.

    • Moral: como obediente até a morte.

  • A maldição da lei foi sobre Ele lançada, para que em nós não houvesse condenação (cf. Gálatas 3.13; Romanos 8.1).

  • A lei continua com valor magisterial, sendo aplicada aos crentes por meio da obra do Espírito Santo.

  • Obedecer à lei em Cristo é fruto do amor e não instrumento de salvação.

“Cristo é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê” (Romanos 10.4).


Conclusão: Lei e Graça Reconciliadas em Cristo

  • Não há dois pactos de salvação: há um único pacto da graça sob diferentes administrações (Antigo e Novo Testamento).

  • A graça está presente desde o Éden, revelada progressivamente até sua plenitude em Cristo.

  • A lei, no pacto da graça, não tem função salvífica, mas pedagógica e santificadora.

  • Cristo é o mediador, o cumprimento, o intérprete perfeito da lei e a sua personificação.

  • A obediência cristã é fruto da fé, não seu fundamento.

  • O crente, liberto da condenação da lei, passa a amar e obedecer a vontade de Deus como expressão de adoração e comunhão.

Frase de Encerramento para Aplicação Pastoral

“A graça não nos dispensa da lei, mas nos capacita a amá-la. O Evangelho não anula os mandamentos, mas nos conduz a cumpri-los com prazer. E o Espírito Santo não nos exime da obediência, mas nos ensina a andar nela, em liberdade.”


Por Pr. Walker Henrique de Souza – proclamando a verdade da Palavra que transforma o entendimento.