Eusébio de Cesareia (265–339 d.C.) — O Historiador do Cristianismo Imperial
Eusébio de Cesareia, também conhecido como Pai da História da Igreja, nasceu por volta de 265 d.C. na Palestina e teve uma vida marcada pela busca de documentar e justificar o crescimento do cristianismo, especialmente sob o império romano. Foi discípulo de Pânfilo de Cesareia, de quem herdou uma biblioteca valiosa com textos cristãos primitivos. Mais tarde, tornou-se bispo de Cesareia, onde permaneceu até sua morte.
A missão dada por Constantino
Foi o imperador Constantino, o primeiro imperador romano a abraçar o cristianismo, quem incumbiu Eusébio da tarefa de narrar a história da Igreja Cristã desde os tempos apostólicos até o momento em que o império se tornava, oficialmente, simpático à fé cristã.
Eusébio aceitou essa missão com zelo, mas também com um compromisso ideológico, buscando apresentar Constantino como instrumento de Deus para a unificação e vitória da fé cristã sobre seus opositores.
"Parecia necessário que Eusébio glorificasse Constantino para justificar a união da Igreja com o Império.” — (GONZÁLEZ, História do Cristianismo, v.1)
Seu esforço de narrativa servia tanto à fé quanto à política: a história da Igreja era, agora, também a história do poder imperial cristianizado.
As obras principais de Eusébio
📖 História Eclesiástica
Escrita entre 311 e 325 d.C., é sua obra mais conhecida. Nela, Eusébio traça um panorama desde os apóstolos até o seu tempo, oferecendo informações valiosas sobre os mártires, os bispos e os concílios. Embora contenha vieses políticos e teológicos, é fonte indispensável para compreender os três primeiros séculos do cristianismo.
📘 Vida de Constantino
Uma obra apologética e panegírica (de exaltação), escrita para glorificar o imperador. Eusébio descreve Constantino como um novo Moisés ou novo Davi — instrumento direto de Deus para salvar a Igreja da perseguição.
A ortodoxia e a crítica moderna
O historiador Paul Johnson observa que, no tempo de Eusébio, a ortodoxia (doutrina correta) ainda não estava consolidada. Havia muitas formas diferentes de cristianismo, como os arianos, os ebionitas, os gnósticos, os marcionitas e outras correntes. A ortodoxia que hoje conhecemos como “mainstream” pode ter se afirmado somente por meio do apoio imperial e das decisões conciliares, como no Concílio de Niceia (325), do qual Eusébio participou.
“A ortodoxia era apenas uma das várias formas de cristianismo, durante o século III, e pode só ter se tornado dominante no tempo de Eusébio.” — (JOHNSON, Uma História do Cristianismo, 2001, p. 69)
Isso mostra que a história da Igreja foi, muitas vezes, escrita pelos vencedores — e Eusébio foi um instrumento fundamental dessa construção.
Eusébio e o papado
Embora fosse um defensor da unidade da Igreja, Eusébio não apresenta a figura do bispo de Roma como cabeça da Igreja universal. Em sua História Eclesiástica, Roma aparece como uma das várias sedes importantes do cristianismo, ao lado de Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Cesareia. A noção de primado universal do Papa ainda era ausente ou, no mínimo, debatida.
Além disso, Eusébio viveu e escreveu antes da doutrina do papado ser formalizada, o que reforça o argumento — que você está desenvolvendo em sua série — de que o papado como o conhecemos hoje é uma construção histórica posterior, e não um ensinamento apostólico.
Lições da vida de Eusébio
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A história da Igreja não pode ser contada sem considerar a política, os interesses imperiais e os conflitos doutrinários.
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Eusébio nos mostra a importância de registrar e preservar a memória da fé, mesmo com limitações e parcialidades.
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Seu testemunho também nos alerta sobre os perigos de misturar a Igreja com o poder estatal, algo que continuaria a crescer nos séculos seguintes — culminando nos abusos do papado medieval.
📚 Referências para aprofundamento
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Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica (traduções modernas em português disponíveis pela Paulus e Vozes)
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Eusébio de Cesareia. Vida de Constantino
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Paul Johnson. Uma História do Cristianismo, Imago, 2001
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Justo L. González. A História do Cristianismo, Vol. 1, Vida Nova
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Philip Schaff. History of the Christian Church, Vol. 3
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Bettenson, H. Documents of the Christian Church