POR QUE CREMOS?
Fragmentos da monografia teológica do Pr. Walker Henrique de Souza
A busca humana pelo transcendente é uma realidade atestada ao longo de toda a história. Desde os primórdios da civilização, o homem tem buscado compreender sua origem, seu propósito e o significado da existência. Tal inquietação levou à formulação de diversas teorias sobre a origem da religião, algumas das quais merecem análise:
1. Teorias Filosóficas e Antropológicas sobre a Crença
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Teoria do Medo: Sustenta que a religião surgiu do temor diante das forças naturais. Esse medo teria levado o homem a atribuir tais fenômenos a divindades misteriosas e poderosas.
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Teoria do Mito: Do grego mythos, o mito seria uma forma simbólica e poética de explicar o inexplicável. Embora limitada, expressa uma tentativa humana de acessar o metafísico.
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Teoria Animista: Acredita que a alma é uma entidade separada do corpo. A morte, nessa perspectiva, ocorre quando a alma se desprende. A relação com os espíritos dos antepassados está no cerne dessa teoria.
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Teoria Animatista: Defende a existência de uma força impessoal chamada mana, presente em objetos e seres, conferindo-lhes poder.
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Teoria da Sorte (Elemento Aleatório): Atribui o sucesso ou fracasso humano a forças sobrenaturais ligadas ao acaso. O homem, então, tenta manipular o “divino” para obter sorte.
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Totemismo: Relaciona grupos humanos a animais ou vegetais considerados ancestrais e sagrados, gerando rituais e reverência a essas figuras.
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Crença e Ritual: Toda religião possui aspectos cognitivos (crença) e ativos (ritual). Os rituais são expressões exteriores de uma relação com o sagrado.
Estas teorias são tentativas humanas de racionalizar o divino, mas falham em compreender que a verdadeira fé não nasce da criação humana, mas da revelação de Deus ao homem. Como está escrito:
"O mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprove a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação" (1Co 1.21).
2. A Revelação: Deus se dá a conhecer
Ao contrário das tentativas humanas de alcançar o transcendente, a fé cristã afirma que foi Deus quem se revelou. Não criamos Deus; Ele se deu a conhecer por meio da revelação especial: primeiro a Israel, depois plenamente em Cristo (Hb 1.1–2).
A história da salvação começa com a eleição de Israel (Dt 7.6–8), que foi o povo portador das promessas, da lei e dos profetas (Rm 3.2). A culminação dessa história ocorre na encarnação de Jesus, o Verbo eterno que se fez carne (Jo 1.14), e que veio trazer luz aos que jaziam em trevas (Lc 1.79).
Por meio de Cristo, a revelação torna-se pessoal e redentora:
"Porque Deus, que disse: Das trevas brilhará a luz, ele mesmo brilhou em nossos corações para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo" (2Co 4.6).
3. A Razão e a Fé: Uma Tensão Histórica
O ser humano é racional por natureza. Deus o criou com intelecto, razão e consciência (Gn 1.26–27). No entanto, após a queda, a mente humana foi obscurecida (Ef 4.18) e sujeita à corrupção do pecado. A razão, sem a iluminação do Espírito, não pode compreender as verdades espirituais (1Co 2.14).
Exemplo disso vemos até nas crianças, que mesmo sem alfabetização já demonstram capacidade lógica. Porém, a lógica humana, sem regeneração, tende a resistir à verdade revelada. É por isso que Paulo adverte:
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2).
4. A Obra do Espírito Santo: A Fé como Dom
Cremos porque o Espírito Santo nos convenceu. A fé não é uma construção filosófica, nem o resultado de deduções lógicas. É fruto da ação do Espírito no coração do pecador (Jo 16.8–13). É Ele quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo.
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2.8).
A ordem da salvação (ordo salutis), conforme sistematizada pela teologia reformada, inclui:
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Chamado eficaz (Rm 8.30)
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Regeneração (Tt 3.5)
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Fé e arrependimento (Mc 1.15)
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Justificação (Rm 5.1)
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Santificação (1Ts 4.3)
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Glorificação (Rm 8.17)
Essa obra é realizada pelo Espírito Santo, que age tanto de forma geral (preservando a ordem no mundo, restringindo o mal, e desenvolvendo talentos humanos) quanto de forma especial (regenerando, santificando e guiando o eleito).
5. A Fé que nos Liberta
A verdadeira fé nos liberta. Ela não é apenas uma convicção intelectual, mas um encontro transformador com a Verdade, que é Cristo (Jo 14.6).
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).
“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36).
A razão pode reconhecer a existência de Deus, mas só o Espírito pode gerar conversão verdadeira. Como disse João Calvino:
"O coração do homem é uma fábrica de ídolos" — e somente a regeneração pode reorientá-lo para o Deus verdadeiro.
6. Uma Palavra Pastoral
Vivemos tempos em que muitos professam a fé cristã, mas não vivem segundo os princípios do Evangelho. Seguem sua “própria verdade”, moldada por conveniências culturais e opiniões pessoais. Mas a Bíblia é clara:
“Toda Escritura é divinamente inspirada e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a instrução na justiça” (2Tm 3.16).
A nossa vida deve estar submissa à Palavra, nossa única regra de fé e prática.
“Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119.105).
Se você não consegue alinhar sua vida com a Palavra, talvez esteja faltando o Consolador, o Espírito Santo. Somente Ele pode fazer de nós novas criaturas (2Co 5.17).
Pense nisso.
Busque ser guiado pelo Espírito (Rm 8.14), viva segundo a verdade revelada e não segundo os impulsos do coração humano (Pv 28.26).
“Graça e paz vos sejam multiplicadas... pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada nos céus” (1Pe 1.2–4).
Que Deus em Cristo vos abençoe e guarde da corrupção do mundo.
Por Pr. Walker Henrique de Souza – proclamando a verdade da Palavra que transforma o entendimento.
Boa.
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