livro Genealogia do Conhecimento

domingo, 12 de agosto de 2012

Policarpo (69 - 159)

Policarpo de Esmirna (69–159 d.C.)

Discípulo de João, Testemunha da Fé e Mártir da Verdade

Pouco se sabe com precisão sobre a infância, família e formação de Policarpo, mas os registros históricos e os testemunhos dos Pais da Igreja fornecem dados suficientes para reconstruirmos sua trajetória. Nascido por volta do ano 69 d.C., na Ásia Menor (atual Turquia), Policarpo foi uma das figuras mais respeitadas da Igreja do segundo século. A tradição mais antiga o reconhece como discípulo direto do apóstolo João, mestre e amigo de Irineu de Lyon, e também contemporâneo de Inácio de Antioquia, com quem trocou cartas fraternas.

Um Bispo Apostólico

Policarpo foi consagrado bispo da Igreja de Esmirna, uma das sete igrejas mencionadas no livro do Apocalipse (Ap 2.8–11). Segundo o testemunho de Tertuliano, ele teria sido ordenado pelo próprio apóstolo João, sendo assim um dos últimos elos vivos entre a geração apostólica e a Igreja nascente. Sua convivência com testemunhas oculares de Cristo foi confirmada por Eusébio de Cesareia e Irineu, que afirmou tê-lo ouvido ainda na infância.

Durante sua vida, Policarpo enfrentou diversas heresias emergentes. Envolveu-se em controvérsias contra os valentinianos e, em especial, contra Marcião, a quem chamou ousadamente de "primogênito de Satanás", devido à negação deste das Escrituras do Antigo Testamento e de parte do Novo.

A Viagem a Roma e o Quartodecimanismo

Em meados do segundo século, Policarpo visitou Roma durante o episcopado do Papa Aniceto, a fim de tratar de um debate importante sobre a data da celebração da Páscoa cristã. As igrejas da Ásia Menor, fiéis à tradição joanina, observavam a Páscoa no 14º dia de Nisã, enquanto a Igreja de Roma celebrava no domingo seguinte. Embora não tenham chegado a um acordo, a reunião foi marcada pela fraternidade e respeito mútuo.

Durante essa estadia em Roma, Policarpo também enfrentou os hereges gnósticos, mantendo firmeza doutrinária e testemunho cristocêntrico.


A Carta aos Filipenses

Dentre os escritos atribuídos a Policarpo, apenas uma carta autêntica sobreviveu: a Epístola aos Filipenses, escrita por volta de 110 d.C. Trata-se de um documento pastoral profundamente enraizado nas Escrituras, repleto de citações do Antigo e do Novo Testamento, incluindo 34 referências diretas às cartas de Paulo. Essa epístola exorta os crentes à vida santa, firmeza na fé e prática das boas obras, demonstrando que a ortodoxia cristã não é apenas uma doutrina correta, mas um modo de vida transformado.

Ao contrário de Inácio, cuja preocupação era a estrutura eclesiástica, Policarpo foca na espiritualidade prática dos crentes, fortalecendo a Igreja por meio da piedade, humildade e fidelidade diária.


O Martírio de Policarpo

O relato do martírio de Policarpo é um dos mais antigos documentos cristãos extra-canônicos: a carta da Igreja de Esmirna à Igreja de Filomélio, datada do ano 157 ou 159, oferece um testemunho comovente de sua morte. Aos 86 anos, já idoso, foi preso e levado ao procônsul romano, que o instou a negar a Cristo em troca de sua vida. Sua resposta ecoou pela história:

“Há 86 anos sirvo a Cristo, e Ele nunca me fez mal algum. Como posso blasfemar contra o meu Rei e Salvador?”

Levaram-no então ao anfiteatro de Esmirna, onde foi condenado à fogueira. Contudo, segundo os relatos, as chamas não o consumiram, formando uma espécie de arco ao redor de seu corpo. Diante disso, os soldados o apunhalaram até a morte e, em seguida, queimaram seu corpo. Seus discípulos recolheram seus ossos como relíquias preciosas e os sepultaram com reverência.

O martírio de Policarpo tornou-se símbolo da coragem cristã diante da perseguição e da fidelidade até a morte. Curiosamente, o relato destaca que até mesmo judeus colaboraram com os pagãos em sua execução, tamanho era o ódio à sua fidelidade e oposição às heresias.


Legado Espiritual

Policarpo permanece como uma das testemunhas mais respeitadas do cristianismo primitivo. Sua vida representa a ponte entre a era apostólica e a era patrística, e sua fidelidade à sã doutrina tornou-se um farol para gerações de cristãos em tempos de crise e perseguição. Ele demonstrou que o verdadeiro discipulado não busca a aprovação do mundo, mas a glória de Deus e a fidelidade a Cristo, mesmo sob fogo e espada.


Referências:

  • Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, Livro IV, cap. 14–15.

  • Irineu de Lyon. Contra as Heresias, Livro III.

  • GONZÁLEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Vida Nova, 2002.

  • CHADWICK, Henry. A Igreja Antiga. São Paulo: Paulus, 2001.

  • JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

Nenhum comentário:

Postar um comentário