Cipriano de Cartago (200–258 d.C.) – O Bispo que Enfrentou Roma
Thascius Caecilius Cyprianus, mais conhecido como Cipriano de Cartago, foi um dos mais influentes líderes cristãos do século III. Convertido ao cristianismo por volta do ano 246 d.C., aos cerca de 46 anos de idade, tornou-se rapidamente uma referência espiritual entre os fiéis norte-africanos. Apenas três anos após sua conversão, em 249 d.C., foi eleito Bispo de Cartago, na atual Tunísia.
Tempos de perseguição e peste
Cipriano liderou a Igreja africana durante tempos extremamente difíceis. Enfrentou de forma corajosa a terrível perseguição do imperador Décio (249–251 d.C.), uma das mais violentas contra os cristãos até então. Durante esse período, muitos crentes apostataram ou abandonaram a fé por medo da morte, e foi sob a liderança pastoral de Cipriano que a Igreja buscou restaurar os arrependidos — assunto que gerou intenso debate teológico.
Além das perseguições, Cartago foi devastada por uma epidemia de peste. Cipriano, com coragem pastoral, cuidou dos enfermos e organizou a assistência aos necessitados, o que fortaleceu seu testemunho como servo do Senhor em meio à calamidade.
Controvérsia com Roma: rebatismo e autoridade eclesiástica
O nome de Cipriano está especialmente associado a um importante debate sobre o batismo de hereges. Para Cipriano, se um batismo fosse realizado por hereges (ou seja, fora da Igreja verdadeira), ele era inválido, pois carecia da presença legítima do Espírito Santo. Para ele, tais batismos deveriam ser repetidos (rebatismo), ao passo que as ordenações de líderes também deveriam ser refeitas.
Essa posição colocou Cipriano em rota de colisão com o bispo de Roma, Estevão I, que defendia a validade do batismo fora da comunhão romana, contanto que fosse feito em nome da Trindade. Cipriano não apenas rejeitou a decisão de Estevão, como recusou a pretensa autoridade do bispo de Roma para impor tal posição às demais igrejas. Em resposta, convocou um concílio regional no Norte da África, que confirmou sua posição.
Cipriano declarou que nenhum bispo, nem mesmo o de Roma, tinha autoridade sobre os demais, pois cada igreja local, liderada por seu bispo, era autônoma — uma visão que claramente contradizia as pretensões papais de centralidade romana. Ele via a Igreja como unida pela fé e pelo Espírito Santo, não por uma jurisdição episcopal única.
“Nenhum de nós se declara bispo dos bispos, nem obriga seus colegas ao jugo da tirania; cada bispo tem plena liberdade e responsabilidade diante de Deus.” — Cipriano, Carta 72.3
Obra e legado
Cipriano produziu uma rica coleção de escritos pastorais e doutrinários, incluindo 14 tratados e 68 cartas endereçadas a diversas comunidades e líderes. Entre seus textos mais conhecidos estão:
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De Unitate Ecclesiae (Sobre a Unidade da Igreja)
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De Lapsis (Sobre os Caídos)
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De Mortalitate (Sobre a Mortalidade)
Seu pensamento exerceu grande influência nos debates eclesiológicos dos séculos seguintes, especialmente sobre a natureza da Igreja, o ministério pastoral e o martírio.
Martírio e fidelidade até o fim
Em 14 de setembro de 258 d.C., durante a perseguição do imperador Valeriano, Cipriano foi condenado à morte por decapitação. Morreu como mártir da fé, afirmando sua lealdade inabalável a Cristo.
Lições para a Igreja de hoje
A vida de Cipriano nos oferece profundas lições:
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Ele foi um pastor verdadeiro, que cuidou do seu rebanho mesmo em tempos de morte, peste e perseguição.
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Ele defendeu a unidade da Igreja, não com base na autoridade de homens, mas na fidelidade à verdade do evangelho.
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Ele rejeitou a primazia do bispo de Roma, estabelecendo um precedente que ecoaria séculos depois, com a Reforma Protestante.
A história de Cipriano fortalece a verdade de que Cristo é o único cabeça da Igreja, e que nenhuma jurisdição terrena pode substituir a autoridade do Espírito Santo e da Palavra de Deus.
“Sede firmes, irmãos caríssimos, em vossa fé e esperança. Deus nos observa; Cristo e seus anjos nos contemplam enquanto lutamos.” — Cipriano, Carta 58
📚 Referências para aprofundamento
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Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro VII
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Cipriano de Cartago, Cartas e Tratados Pastorais
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Gonzalez, Justo L. A História Ilustrada do Cristianismo
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Schaff, Philip. History of the Christian Church, Vol. 2
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Frend, W.H.C. The Rise of Christianity
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Bettenson, H. Documents of the Christian Church