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quinta-feira, 21 de abril de 2011

A GRAÇA ABOLIU A LEI? O QUE A BÍBLIA REALMENTE ENSINA



Afinal, se a salvação é pela graça, a Lei de Deus perdeu sua função? Essa pergunta parece simples, mas sua resposta envolve alguns dos temas mais importantes da fé cristã: salvação, fé, obediência, justificação e santificação.

Talvez você já tenha ouvido que “a Lei foi abolida” ou, no extremo oposto, que o cristão precisa cumprir a Lei para ser aceito por Deus. Mas o que acontece quando colocamos essas afirmações diante do conjunto das Escrituras?

Neste estudo, vamos examinar essa questão com atenção, procurando compreender onde termina o legalismo, onde começa o antinomismo e como a Bíblia relaciona Lei, Graça, Fé e Santificação.

Leia até o final, examine os textos bíblicos e tire suas próprias conclusões. E, se este estudo contribuir para sua compreensão, deixe seu comentário, compartilhe com alguém que possa se beneficiar e siga o blog para acompanhar os próximos estudos.

A GRAÇA ABOLIU A LEI? O QUE A BÍBLIA REALMENTE ENSINA

Uma jornada teológica e pastoral ao verdadeiro entendimento sobre a Lei, a Graça, a Fé e a Santificação

Afinal, se estamos debaixo da graça, qual é o lugar da Lei na vida do cristão?

Poucos temas despertam tantas discussões no meio cristão quanto a relação entre Lei e Graça.

De um lado, alguns afirmam: “Estamos debaixo da graça; portanto, a Lei não tem mais importância.” De outro, existem aqueles que, consciente ou inconscientemente, acabam transmitindo a ideia de que precisamos cumprir a Lei para sermos aceitos por Deus.

Mas será que a Bíblia realmente apresenta essas duas opções?

Será que a Graça veio para cancelar a Lei? Ou será que estamos diante de duas realidades? Ao compreender à luz das Escrituras, veremos uma profunda harmonia no plano de Deus?

Esse assunto vai muito além de uma simples discussão teológica. Ele toca diretamente questões fundamentais da vida cristã:

Somos salvos pela fé ou pelas obras?
Qual é a função da Lei depois da vinda de Cristo?
A graça elimina a necessidade de obediência?
O cristão ainda possui responsabilidades morais diante de Deus?
Qual é a relação entre justificação e santificação?

Quando esses conceitos são separados ou mal compreendidos, surgem dois perigos.

O primeiro é o Antinomismo, que pode transformar a mensagem da graça em uma espécie de liberdade sem compromisso, como se a salvação anulasse qualquer responsabilidade moral diante de Deus.

O segundo é o Legalismo, que transforma a obediência em um meio de conquistar a aceitação divina, colocando sobre o ser humano um peso que somente a graça de Deus pode resolver.

A Bíblia, porém, apresenta um caminho diferente.

A Lei e a Graça não precisam ser colocadas em oposição.

A Lei revela o caráter e a vontade de Deus.
A Graça salva o pecador.
Cristo redime e realiza a obra da salvação.
O Espírito Santo transforma o coração e conduz o cristão em santidade.

Por isso, compreender corretamente a relação entre Lei, Graça, Fé e Santificação é essencial para uma vida cristã equilibrada, bíblica e centrada em Cristo.

Se você já se perguntou “A Graça aboliu a Lei?”, ou se alguma vez ficou confuso diante de textos bíblicos que parecem colocar Lei e Graça em lados opostos, este estudo foi preparado para você.

Ao longo desta reflexão, vamos percorrer as Escrituras procurando compreender o que a Bíblia realmente ensina, sem os extremos do legalismo e do antinomismo, mas buscando uma compreensão teológica e pastoral que preserve tanto a gratuidade da salvação quanto a necessidade de uma vida transformada.

Afinal, se somos salvos pela graça, qual é o lugar da Lei na vida daquele que foi alcançado por Cristo?

Essa é a pergunta central. E a resposta pode ser muito mais profunda do que simplesmente dizer que a Lei foi abolida ou que devemos voltar a viver sob a Lei.

Convido você a continuar esta leitura até o final. Abra sua Bíblia, examine os textos apresentados e permita que a própria Escritura conduza nossa compreensão.

Vamos descobrir juntos como Lei e Graça podem ser compreendidas não como inimigas, mas dentro da perfeita harmonia do plano de Deus.

O QUE É LEI E O QUE É GRAÇA?

1. O que entendemos por Lei?

Na Bíblia, a palavra “lei” pode possuir diferentes sentidos dependendo do contexto.
O termo hebraico Torá pode significar instrução, ensino ou orientação. No Novo Testamento, o termo grego nomos também pode assumir diferentes sentidos conforme o contexto.

Por isso, quando Paulo afirma: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” Romanos 6:14.
Não podemos simplesmente concluir a partir desse versículo, que toda e qualquer manifestação da Lei de Deus deixou de possuir validade moral.

Precisamos perguntar: De que lei Paulo está falando?
Essa pergunta é essencial para compreender Romanos, Gálatas, Efésios e Colossenses.

2. O que é Graça?

Graça é o favor imerecido de Deus concedido ao ser humano pecador.
Mas, biblicamente, graça não significa simplesmente: 
  • “Deus não se importa mais com o pecado.”
Pelo contrário: 
  • A graça enfrenta o pecado e oferece perdão.
  • A graça restaura e chama ao arrependimento.
  • A graça capacita para uma nova vida.
Na perspectiva arminiana, essa graça não começa apenas quando o indivíduo crê. A graça divina antecede a resposta humana. É aquilo que a tradição wesleyana chama de graça preveniente.
H. Orton Wiley descreve a graça preveniente como a graça que “vai adiante” e prepara o ser humano para responder a Deus. Nessa compreensão, a graça divina não apenas perdoa o pecador; ela também o desperta, ilumina e chama à resposta de fé.

Assim:
  • Lei → revela o pecado. Graça → oferece a salvação.
  • Fé → recebe Cristo. Espírito Santo → transforma o crente.
  • Obediência → manifesta a transformação.
O QUE O APÓSTOLO PAULO QUERIA DIZER QUANDO SE REFERIA, A LEI E A GRAÇA

1. “Não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça”  Romanos 6:14

Este versículo é frequentemente mal compreendido.
Muitos interpretam que estar “debaixo da graça” significa que não precisamos mais guardar os mandamentos de Deus. Mas será isso o que Paulo quis dizer?
Certamente não.

O contexto imediato de Romanos 6 fala justamente sobre libertação do domínio do pecado.
Paulo está ensinando: Porque você está debaixo da graça, o pecado não deve mais dominar sua vida.

A graça não é autorização para permanecer no pecado.
A graça é a ação de Deus que nos liberta do domínio do pecado.

O próprio apóstolo responde: “Anulamos, pois, a Lei pela fé? De modo nenhum; antes, estabelecemos a Lei.” Romanos 3:31

Aqui encontramos uma verdade fundamental. A fé em Cristo não transforma:
  • O pecado em virtude. A desobediência em santidade. A rebelião em liberdade.
  • A fé estabelece a Lei em seu verdadeiro lugar.
  • A salvação é pela graça mediante a fé.
  • A santificação implica obediência.
Para John Wesley:
  • A justificação não acontece pelas obras da Lei.
  • A fé verdadeira não elimina a necessidade da santidade.
  • Ele advertia contra transformar a liberdade cristã em liberdade para pecar.

Portanto: Não somos salvos porque obedecemos. Obedecemos porque fomos alcançados pela graça salvadora.

No seu texto original: “Não estar debaixo da lei significa não está debaixo da:
  • LEI DO PECADO E DA LEI CERIMONIAL.
Precisamos acrescentar uma qualificação.

A expressão “lei do pecado” em Paulo não deve ser confundida automaticamente com toda a Lei moral de Deus. Em Romanos, Paulo utiliza “lei” em diferentes sentidos.
Em Romanos 7, por exemplo, “lei do pecado” descreve o princípio ou poder do pecado atuando no ser humano.
Portanto, é necessário interpretar cada ocorrência de “lei” dentro de seu contexto.

A LEI NO CONTEXTO DA CONVERSÃO

Paulo escreve a crentes, e não a ímpios.
Em Romanos 6, ele aborda a realidade da conversão:“...nosso velho homem foi com ele crucificado... para que não sirvamos mais ao pecado.” Romanos 6:6
“Considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.”
Romanos 6:11

Observe a sequência:
  • Cristo morreu. Nós cremos. Somos unidos a Cristo.
  • O velho homem é crucificado. O domínio do pecado é quebrado. Começamos uma nova vida.
Portanto, a consequência prática da graça é uma vida que rompe com o pecado.

E pecado, conforme João nos lembra: “O pecado é a transgressão da Lei.” 1 João 3:4

Logo: A graça não é licença para pecar, mas poder para viver em santidade.

John Wesley insistia justamente nessa conexão. Em sua exposição de Romanos 3:31, ele argumentava que tornar a fé uma desculpa para diminuir a santidade seria, na prática, “anular” a Lei. Para ele, a fé genuína produz santidade.

Portanto pergunte a si mesmo: Minha compreensão da graça está produzindo santidade?
Porque uma graça que nunca transforma precisa ser biblicamente questionada.

O QUE SIGNIFICA “NÃO ESTAR DEBAIXO DA LEI”?

Paulo afirma que os crentes não estão mais debaixo da Lei.

1. Significa que: Não estamos mais sob sua condenação.

O pecador que está em Cristo não está mais debaixo da condenação judicial do pecado.
Cristo pagou a penalidade do pecado. Romanos 8:1 declara: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
Isso é graça.

2. Não vivemos mais segundo a natureza carnal

A vida cristã não é simplesmente uma mudança de comportamento exterior.
É uma transformação interior produzida pelo Espírito.
Paulo afirma: “Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Lei.” Gálatas 5:18

O Espírito conduz o crente a uma vida que corresponde à vontade de Deus.
Quem está guiado pelo Espírito não vive deliberadamente no pecado. Portanto, não está mais sob a condenação da Lei.

3. Graça não significa ausência de governo moral

Aqui está uma distinção fundamental: Não estar debaixo da condenação da Lei não significa estar sem autoridade moral.
O cristão foi libertado da condenação, mas não foi libertado da responsabilidade de viver para Deus.
Wesley faz exatamente essa distinção: o cristão não obedece para conquistar sua aceitação diante de Deus, mas, estando debaixo da graça, passa a obedecer de maneira voluntária e amorosa.

VAMOS ENTENDER A DISTINÇÃO ENTRE LEIS: MORAL, CERIMONIAL E CIVIL

Um ponto central da compreensão bíblica da Lei é distinguir diferentes dimensões da legislação mosaica.

A) LEI MORAL

Quando falamos em Lei Moral, estamos nos referindo aos princípios divinos que expressam aquilo que Deus considera correto ou errado no comportamento humano. Tradicionalmente, esses princípios são associados de maneira especial aos Dez Mandamentos, apresentados nas Escrituras como uma expressão fundamental dos deveres do ser humano para com Deus e para com o próximo.

A Lei Moral não deve ser compreendida simplesmente como um conjunto de regras externas. Ela revela princípios relacionados à santidade, justiça e vontade de Deus, mostrando ao ser humano como deve se relacionar com o Criador e com o seu semelhante.

1. A Lei foi dada por Deus

As Escrituras apresentam os Dez Mandamentos como algo que procede diretamente de Deus. Em Êxodo 31:18, encontramos a afirmação de que as tábuas do testemunho foram escritas “pelo dedo de Deus”.

Isso demonstra a autoridade divina da Lei. Ela não nasceu simplesmente de uma construção social ou de uma convenção humana, mas foi apresentada como revelação da vontade de Deus ao seu povo.

2. A Lei possui caráter moral

A Lei estabelece princípios fundamentais relacionados à conduta humana.

Ela trata, por exemplo, da adoração a Deus, da reverência ao seu nome, da relação com o próximo, da honra aos pais, da preservação da vida, da fidelidade conjugal, da honestidade e da cobiça.Portanto, seus mandamentos alcançam questões profundamente morais e revelam padrões de comportamento que ultrapassam interesses individuais.

3. A Lei revela princípios relacionados ao caráter de Deus

A Lei não deve ser analisada isoladamente de seu Legislador. Os mandamentos revelam aspectos daquilo que Deus aprova e exige de seu povo.

Deus é santo, justo e verdadeiro; consequentemente, sua vontade também estabelece um padrão de santidade, justiça e verdade.

Por isso, a Lei funciona como um espelho moral: ela não transforma o pecador por si mesma, mas revela a condição do coração humano diante do padrão divino.

4. A Lei é espiritual

Paulo afirma: “A lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom.” Romanos 7:12

E acrescenta: “A lei é espiritual.” Romanos 7:14

Isso é fundamental para compreendermos que o problema nunca esteve na Lei de Deus. O problema está no pecado presente no ser humano.

A Lei é santa, justa e boa; porém, ela não foi dada como mecanismo de salvação. Ela revela o padrão de Deus, mas não possui a função de justificar o pecador diante dele.

5. Jesus não tratou a Lei como algo sem valor

No Sermão do Monte, Jesus declarou: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir.” Mateus 5:17

Jesus não apresentou sua missão como uma autorização para viver sem qualquer referência à vontade moral de Deus. Pelo contrário, Ele aprofundou a compreensão da Lei, mostrando que sua verdadeira dimensão alcança não apenas os atos externos, mas também as intenções e disposições do coração.

Assim, Cristo conduz seus ouvintes para uma compreensão mais profunda da vontade de Deus.

6. Os apóstolos também reconheceram a importância da Lei

O ensino apostólico não apresenta a Lei como algo pecaminoso ou inútil.

Paulo, por exemplo, afirma: “Nós sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente.” 1 Timóteo 1:8

Além disso, ao tratar do mandamento de honrar pai e mãe, ele reafirma sua importância: Efésios 6:2.

Isso demonstra que a chegada da Nova Aliança não significa que todo princípio moral anteriormente revelado por Deus tenha perdido automaticamente seu significado.

A Lei não salva, mas revela o pecado

Aqui está um dos pontos mais importantes para compreendermos a relação entre Lei e Graça: A Lei não é o caminho da salvação.

Ninguém é justificado diante de Deus simplesmente porque conhece, admira ou tenta cumprir mandamentos. A salvação é dom da graça de Deus e recebida pela fé em Cristo.

Entretanto, isso não significa que a Lei seja inútil. A Lei revela o pecado, mostra o padrão de justiça de Deus e evidencia a necessidade que o ser humano possui de redenção.

Paulo explica: “Eu não conheceria o pecado, senão pela lei.” Romanos 7:7

A Lei, portanto, pode ser comparada a um espelho. O espelho mostra a sujeira do rosto, mas não possui capacidade de lavá-lo.

Da mesma maneira, a Lei revela o pecado, mas quem salva e transforma o pecador é Deus, por meio de sua graça, em Cristo.

A Lei revela nossa necessidade; a Graça oferece a resposta.

Por isso, não precisamos escolher entre Lei e Graça como se fossem duas mensagens rivais. Precisamos compreender a função de cada uma dentro da revelação bíblica.

A Lei revela o pecado. A Graça oferece o perdão. Cristo realiza a redenção.
A Fé recebe a salvação. E o Espírito Santo conduz o salvo a uma vida de santidade.

B) LEI CERIMONIAL

A Lei Cerimonial estava relacionada ao sistema de culto estabelecido por Deus para Israel. Incluía práticas que ensinavam, por meio de símbolos e figuras, verdades relacionadas à redenção.

Entre seus principais elementos estavam:

  • Sacrifícios e ofertas; Festas e celebrações religiosas; Purificações;

  • Sacerdócio e serviço do templo; Rituais e ordenanças do culto.

Essas práticas possuíam um caráter simbólico e pedagógico, apontando para uma realidade maior que seria revelada em Cristo.

Paulo afirma: “Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida ou bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo.” Colossenses 2:16-17

Hebreus também apresenta a Lei como tendo: “A sombra dos bens futuros.” Hebreus 10:1

Assim, os sacrifícios, o sacerdócio e os diversos rituais estabelecidos na Lei Cerimonial apontavam para a obra redentora que seria realizada por Cristo.

Cristo é o cumprimento das figuras, símbolos e sombras presentes na Lei Cerimonial.

A função principal desses elementos não era proporcionar a salvação definitiva ao ser humano, mas apontar para aquele que haveria de vir e realizar plenamente a redenção.

Com a vinda de Cristo, sua morte sacrificial e sua ressurreição, aquilo que era representado de forma simbólica encontrou seu cumprimento perfeito nele. Por isso, os rituais e cerimônias da antiga aliança não precisam ser observados pelos cristãos como exigência religiosa ou condição para a salvação.

Cristo é o sacrifício perfeito e definitivo. Como ensina Hebreus 10:1, a Lei possuía “a sombra dos bens futuros”, enquanto Cristo trouxe a realidade para a qual essas sombras apontavam. Por meio dele, não dependemos mais dos antigos sacrifícios e cerimônias para nos aproximarmos de Deus, pois sua obra redentora é completa e suficiente.

“Porque Cristo é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê.” (Rm 10:4)

Portanto, compreender a Lei Cerimonial à luz de Cristo é perceber que ela fazia parte do plano progressivo da revelação de Deus e preparava o caminho para a Nova Aliança estabelecida por Jesus.

C) LEI CIVIL

A Lei Civil correspondia às normas dadas por Deus para organizar a vida de Israel como nação. Regulava questões de justiça, propriedade, responsabilidades sociais, relações comunitárias e aplicação de penalidades.

Enquanto a Lei Moral apresentava princípios éticos e a Lei Cerimonial regulava o culto e seus símbolos, a Lei Civil tratava da organização prática da sociedade israelita.

É importante, porém, reconhecer que nem todas as prescrições dadas especificamente à nação de Israel possuem a mesma aplicação na Nova Aliança. Algumas estavam diretamente relacionadas à estrutura política, jurídica e social daquela comunidade.

Por isso, ao estudar a Lei, precisamos considerar seu propósito, contexto e cumprimento em Cristo, evitando aplicar indistintamente à Igreja todas as normas específicas dadas a Israel.

A Lei foi dada em diferentes contextos e com diferentes funções; compreendê-los é essencial para interpretar corretamente a relação entre Lei e Graça.

TEXTOS FREQUENTEMENTE MAL INTERPRETADOS

1. Gálatas 3:13 “Cristo nos resgatou da maldição da Lei”

Paulo não está dizendo que a Lei de Deus é má. Pelo contrário, a Escritura afirma que “a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Romanos 7:12).

A maldição está relacionada à condenação decorrente da transgressão da Lei. Cristo nos redimiu dessa condenação ao assumir sobre si a penalidade do pecado.

Portanto, Cristo não morreu para tornar o pecado aceitável, mas para nos libertar do pecado e de sua condenação.

2. Efésios 2:15 “Aboliu... a lei dos mandamentos na forma de ordenanças”

O contexto é essencial. Paulo está tratando da inimizade e separação entre judeus e gentios.

Por meio de Cristo, a barreira que os separava foi derrubada, e ambos foram reconciliados em “um novo homem” (Efésios 2:14-16).

Assim, o texto deve ser compreendido dentro do contexto das ordenanças que marcavam e separavam o sistema judaico, e não como uma afirmação simplista de que toda a Lei de Deus deixou de existir.

Isso é coerente com Rm 7:12, onde Paulo ainda afirma que “a lei é santa, justa e boa”.

3. Colossenses 2:16-17 — “Ninguém vos julgue... por causa de sábados”

Paulo afirma que essas coisas eram: 

“Sombras das coisas futuras; mas o corpo é de Cristo.” Colossenses 2:17

A interpretação adotada neste estudo entende esses “sábados” no contexto das observâncias cerimoniais e do calendário religioso judaico, considerando também Levítico 23, onde aparecem os sábados e festas ligados ao sistema cerimonial.

O ponto central permanece: as sombras apontavam para Cristo, que é o cumprimento da realidade para a qual elas apontavam. Cristo nosso descanso. (SABADO)

CONFIRMANDO A LEI MORAL NO NOVO TESTAMENTO

A Nova Aliança não apresenta a Lei Moral como meio de justificação. O ser humano é justificado pela graça, mediante a fé em Cristo.

Romanos 7:7 A Lei revela o pecado  “Eu não conheceria o pecado senão pela lei.”

A Lei revela o que é pecado e mostra ao ser humano sua necessidade da graça.

Romanos 7:12 A Lei é santa, justa e boa “A lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom.”

Observe que Paulo diz “é”, e não “era”. Ele não afirma que a Lei deixou de ter valor moral com a chegada da Nova Aliança. Pelo contrário, reconhece sua natureza santa, justa e boa.

1 Timóteo 1:8 A Lei é boa quando usada corretamente “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente.”

Portanto, o problema não está na Lei, mas em seu uso inadequado, especialmente quando alguém tenta utilizá-la como meio de conquistar a salvação. 

Mateus 5:17-19 Jesus veio cumprir a Lei “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir.”

Cristo não veio abolir a vontade moral de Deus. Ele veio cumpri-la e levá-la ao seu pleno propósito, revelando sua profundidade e aplicação ao coração humano.


A LEI E O EVANGELHO: HARMONIA ENTRE JUSTIÇA E GRAÇA

1. O erro dos judeus e a ilusão do cristianismo moderno

Quando os judeus rejeitaram a Cristo, rejeitaram o fundamento de sua própria esperança messiânica. De modo semelhante, o mundo cristão contemporâneo, que afirma crer em Cristo, mas despreza completamente a dimensão moral da vontade de Deus, incorre em outro erro.
Aqueles que professam apegar-se a Cristo, concentrando nEle suas esperanças, mas ao mesmo tempo rejeitam a Lei Moral e as profecias, não compreendem adequadamente a unidade da revelação bíblica.

Como podemos chamar o pecador ao arrependimento se não conseguimos explicar o que é pecado?
O pecador pode perguntar: “Do que preciso me arrepender?”

A resposta bíblica é: “Pecado é a transgressão da Lei.” 1 João 3:4

Portanto, a Lei exerce uma função reveladora.
A Lei pode revelar nossa doença, mas não pode ser o médico que nos cura.

CRISTO: MEDIADOR E CUMPRIDOR DA LEI

Cristo veio ao mundo como o único Mediador entre Deus e os homens.
Seu objetivo é reconciliar o homem com Deus.
A Lei, por si só, não possui poder para perdoar pecados.
Sua função é revelar o pecado e a santidade de Deus.
Somente Jesus poderia oferecer a solução para a culpa humana.
Ele ofereceu Seu sangue inocente.
Ele cumpriu as figuras proféticas do sistema cerimonial.
Ele viveu em perfeita obediência.
Ele morreu como sacrifício.
Ele ressuscitou.
Ele oferece reconciliação.

Mas o fato de Cristo ter pago a dívida do pecador não lhe dá licença para continuar na transgressão. O perdão recebido deve produzir uma vida transformada.

A ANTIGUIDADE E PERMANÊNCIA DA LEI MORAL

A Lei de Deus precede a criação do homem, pois, sem Lei, não haveria pecado.

Se não existisse qualquer padrão moral divino, a transgressão de Adão não poderia ser compreendida como pecado.
Por isso, encontramos desde Gênesis princípios de responsabilidade moral diante de Deus.

Gênesis 2:17 apresenta claramente um mandamento divino: “...da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás...”

Havia:
  • Mandamento. Responsabilidade. Possibilidade de obediência e desobediência.
  • Consequência.
Após a queda, os princípios da Lei não foram simplesmente eliminados.
O pecado revelou a necessidade de redenção.

A FUNÇÃO SUBSTITUTIVA DO SISTEMA SACRIFICIAL

Nos tempos antigos, os sacrifícios apontavam simbolicamente para a necessidade de expiação.
O sacerdote atuava como mediador dentro do sistema estabelecido por Deus.
Entretanto, ele mesmo era pecador.
Nenhum sacerdote humano poderia oferecer sua própria vida como expiação definitiva.
Por isso, o sistema apontava para algo maior.
Um cordeiro sem mácula era oferecido.
Esse cordeiro representava Cristo.

João Batista declarou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” João 1:29

O sangue do animal não possuía, em si mesmo, poder absoluto para remover definitivamente o pecado. Ele apontava para Cristo.
Hebreus 10 deixa isso claro ao mostrar que os sacrifícios antigos eram sombras e apontavam para a obra perfeita de Cristo. Assim, pela fé, o pecador olhava para aquilo que Deus faria definitivamente na cruz.

A LEI CERIMONIAL E O PROPÓSITO REDENTOR

Se Adão não tivesse transgredido a Lei Moral, não haveria necessidade do sistema sacrificial relacionado à queda.
O evangelho foi revelado já no Éden: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça...” Gênesis 3:15

Essa promessa é frequentemente chamada de protoevangelho, isto é, a primeira promessa explícita de redenção após a queda. 
O evangelho foi progressivamente revelado.

De Adão a Noé. 
De Noé a Abraão.
De Abraão a Moisés.
De Moisés aos profetas.
Dos profetas a João Batista.
De João Batista a Cristo.
E em Cristo encontramos a plenitude.

Jesus disse: “Se crêsseis em Moisés, creríeis em Mim; porque de Mim escreveu ele.” João 5:46

Portanto, a Lei cerimonial não era um sistema concorrente ao evangelho.

Ela era pedagógica. Ela ensinava por meio de símbolos. Ela apontava para Cristo.


CRISTO: CUMPRIMENTO DA LEI E DOS TIPOS

Em Sua vida e morte, Cristo cumpriu as profecias e os tipos da Lei Cerimonial, Ele foi: 
  • Cordeiro. Sacerdote perfeito. sacrifício perfeito. Mediador.
  • Ele guardou perfeitamente a Lei Moral.
Jesus declarou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir.” Mateus 5:17

Todo o sistema cerimonial encontrou sua realização em Cristo.

Sacrifícios. Festas. Purificações. Sacerdócio. Tabernáculo.

Tudo apontava para uma realidade maior. CRISTO.

Assim, quando Cristo realizou Sua obra, aquilo que era sombra encontrou sua realidade.

EVANGELHO SEM LEI É OUTRO EVANGELHO?

Um evangelho que despreza completamente a dimensão moral da revelação bíblica torna-se incapaz de explicar adequadamente o pecado, o arrependimento e a santidade.

A graça que perdoa também transforma. A fé salvadora conduz à obediência.

O salmista afirma: “A Lei do Senhor é perfeita e restaura a alma...” Salmo 19:7

João declara: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos.” 
1 João 2:3

Portanto: Não somos salvos pela obediência, mas a salvação recebida pela fé produz uma vida de obediência.


A GRANDE DIFERENÇA ENTRE LEGALISMO E OBEDIÊNCIA

Esta distinção precisa ficar gravada na mente do Servo de DEUS.
Legalismo diz: “Eu obedeço para que Deus me aceite.”

Evangelho diz: “Deus me recebeu em Cristo; por isso desejo obedecer.”

Legalismo diz: “Minha obediência compra minha salvação.”
Graça diz: “Minha salvação é dom de Deus; minha obediência é resposta de amor.”

Legalismo produz:
  • Medo. Orgulho. Comparação. Autoconfiança.

Graça produz:
  • Gratidão. Humildade. Amor. Santidade.

A DIFERENÇA ENTRE ANTINOMISMO E LIBERDADE CRISTÃ

O antinomismo afirma: “Não existe mais obrigação moral.”

A liberdade cristã afirma: “Não sou escravo do pecado; agora posso viver para Deus.”

São coisas completamente diferentes.

Paulo pergunta: “Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” E responde: “De modo nenhum!” Romanos 6:15.
Essa resposta deveria destruir qualquer interpretação da graça que transforme a liberdade em permissão para pecar.

A GRAÇA QUE ENSINA

Paulo escreve: “Porque a graça de Deus se manifestou... ensinando-nos que, renunciando à impiedade... vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa.” Tito 2:11-12

Observe o verbo: Ensinando-nos.
A graça é pedagógica, ela nos ensina a dizer:
Não à impiedade. Não às paixões mundanas. Não ao pecado.

E: 
Sim à justiça. à piedade. à santidade. à vontade de Deus.

Portanto: A graça que não nos ensina a abandonar o pecado foi mal compreendida.

UMA VISÃO ARMINIANA DA HARMONIA ENTRE LEI E GRAÇA

A perspectiva arminiana pode ser resumida da seguinte maneira:

1. Deus inicia
A graça divina antecede a resposta humana.

2. O ser humano responde
A graça não destrói a responsabilidade humana.

3. A fé recebe
A justificação é recebida mediante a fé.

4. Cristo salva
A base da salvação é a obra de Cristo.

5. O Espírito transforma
A santificação é obra da graça de Deus no crente.

6. A obediência acompanha
A fé verdadeira produz uma vida transformada.

7. A perseverança importa
A vida cristã deve continuar em fé, santidade e comunhão com Cristo.

H. Orton Wiley apresenta a graça como abrangendo não apenas a entrada na salvação, mas também sua operação contínua na vida do crente.

John Wesley, por sua vez, rejeita explicitamente a ideia de que estar “debaixo da graça” permita diminuir a santidade. Para ele, a fé que justifica também conduz à santidade.

O QUE A LEI FAZ E O QUE A LEI NÃO FAZ

A Lei faz: 
Revela o pecado. A santidade de Deus. Mostra nossa necessidade. Define moralmente o pecado. Orienta a vida cristã. Aponta para Cristo quando corretamente compreendida dentro da história da redenção.

A Lei não faz:

Não perdoa pecados. Não regenera. Não justifica o pecador. Não substitui Cristo. Não compra a salvação. Não produz mérito humano diante de Deus.

O QUE A GRAÇA FAZ E O QUE A GRAÇA NÃO FAZ

A graça faz:
Perdoa. Justifica. Reconcilia. Transforma. Santifica. Capacita. Ensina. Restaura.

A graça não faz:
Não transforma pecado em santidade. Rebeldia em liberdade. Não elimina responsabilidade moral. Não autoriza a desobediência. Não substitui a santificação.

Aplicação Pastoral
Irmãos, precisamos tomar cuidado com dois erros.

Primeiro erro: legalismo
É pensar: “Se eu fizer tudo certo, Deus terá que me salvar.” 
Não.
Nossa salvação não é salário. É graça.

Segundo erro: antinomismo

É pensar: “Já que sou salvo pela graça, posso viver de qualquer maneira.”
Paulo responde: “De modo nenhum!”

A graça não diminui a santidade. A graça produz santidade.
A graça não reduz o padrão de Deus. A graça nos capacita a caminhar em direção a esse padrão.

João escreve: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos.” 1 João 5:3

Portanto, pergunte a si mesmo:

Minha compreensão da graça me aproximou ou me afastou da santidade?
Minha fé me tornou mais obediente ou mais indiferente?
Meu relacionamento com Cristo está produzindo transformação?
Eu uso a graça como combustível para a santidade ou como desculpa para o pecado?
A verdadeira graça não nos conduz para longe de Deus.
Ela nos conduz para mais perto de Deus.

CONCLUSÃO GERAL

A grande questão não é: Lei ou Graça?

A pergunta correta é: Como a Lei e a Graça se relacionam dentro da obra redentora de Deus em Cristo?

A Lei revela o pecado. A graça oferece o perdão.
Cristo realiza a redenção. A fé recebe a salvação.
O Espírito Santo realiza a transformação. A santificação produz uma nova maneira de viver.

Por isso, não precisamos escolher entre Lei e Graça como se fossem inimigas.

Precisamos colocá-las no lugar correto.
A Lei não é nosso salvador.  Cristo é.
A obediência não é a base da nossa justificação.  Cristo é.
As obras não compram nossa salvação.
A graça é dom.
Mas a graça que salva também transforma.
E o salvo transformado deseja agradar aquele que o salvou.

FRASE DE ENCERRAMENTO

“A graça não nos dispensa da lei, mas nos capacita a amá-la. O Evangelho não anula os mandamentos, mas nos conduz a cumpri-los com prazer. E o Espírito Santo não nos exime da obediência, mas nos ensina a andar nela, em liberdade.”


A Lei mostra por que precisamos de um Salvador; a Graça nos conduz ao Salvador; Cristo nos salva; o Espírito nos transforma; e a obediência demonstra que a graça realmente está operando em nós.

Por Pr. Walker H Souza – proclamando a verdade da Palavra que transforma o entendimento. | Verdades Cristã

"Cristianismo sem verdade vira religiosidade. Verdade sem Cristo vira conhecimento vazio. O chamado apostólico continua sendo o mesmo: conhecer a Verdade, amar a Verdade e viver para a glória de Deus."

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