livro Genealogia do Conhecimento

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Papias de Hierápolis (70–140 d.C.)

 

Papias de Hierápolis (70–140 d.C.)

Guardião das Tradições Orais Apostólicas

Papias foi bispo da Igreja de Hierápolis, cidade da Frígia (região da atual Turquia), vivendo entre o fim do primeiro século e o início do segundo. Embora poucos detalhes biográficos tenham sobrevivido, ele é considerado uma das figuras mais importantes da geração imediatamente posterior aos apóstolos — sendo contemporâneo e discípulo de João, o Apóstolo, e conhecido também de Policarpo de Esmirna.

Eusébio de Cesareia (c. 260–339), historiador eclesiástico, refere-se a Papias como “um homem de talento limitado, mas zeloso pela verdade apostólica” (História Eclesiástica, III.39), destacando seu papel como intérprete das tradições orais cristãs.


Ouvinte da Tradição Viva

Papias escreveu uma obra intitulada “Exposição das Palavras do Senhor” (Logiôn Kyriakôn Exêgêsis), composta por cinco livros, dos quais apenas fragmentos sobreviveram, citados por Eusébio, Irineu e outros escritores antigos. Nessa obra, Papias registrou tradições orais e testemunhos de primeira mão, obtidos de “os anciãos que haviam convivido com os apóstolos do Senhor”.

Ao contrário de outros escritores que valorizavam textos escritos, Papias declara:

“Não hesitarei em acrescentar às minhas interpretações tudo quanto aprendi bem e cuidadosamente das palavras dos presbíteros, pois não me agrada, como a muitos, aqueles que dizem muitas coisas, mas os que ensinam a verdade. Nem escuto com prazer os que relatam preceitos alheios, mas os que transmitem os mandamentos dados pelo Senhor à fé e que procedem da própria Verdade.”
(Eusébio, HE 3.39.4)

Este testemunho mostra que Papias valorizava a tradição oral apostólica, privilegiando o contato com testemunhas vivas, especialmente discípulos diretos dos apóstolos — como Aristião e o presbítero João.


Contribuições à Formação Canônica

Papias é uma das fontes mais antigas sobre os Evangelhos, tendo fornecido testemunhos valiosos sobre Marcos e Mateus. Segundo ele:

“Marcos, que foi o intérprete de Pedro, escreveu com exatidão tudo quanto recordava, mas não em ordem, aquilo que foi dito ou feito por Cristo. Pois ele não ouviu nem seguiu o Senhor, mas posteriormente seguiu Pedro, que ensinava segundo as necessidades da ocasião, e não como quem organiza os discursos do Senhor. Assim, Marcos não errou em nada ao escrever algumas coisas como se lembrava.”
(Eusébio, HE 3.39.15)

E ainda:

“Mateus organizou os oráculos [do Senhor] em língua hebraica, e cada um os traduziu como podia.”
(Eusébio, HE 3.39.16)

Essas declarações são de grande importância para os estudos bíblicos e para a história da formação do cânon do Novo Testamento, pois confirmam o uso de fontes apostólicas vivas e de tradição oral no desenvolvimento dos Evangelhos escritos.


Papias e o Milênio

Papias foi também um dos primeiros defensores do milenarismo (chiliasmo), a crença de que Cristo retornará para reinar literalmente por mil anos na terra. Essa doutrina, segundo Irineu, foi ensinada por Papias com base na tradição apostólica. Embora essa interpretação tenha sido mais tarde rejeitada pela Igreja institucionalizada, ela exerceu grande influência nos primeiros séculos.

Irineu o defende vigorosamente:

“Essas coisas Papias, ouvinte de João e companheiro de Policarpo, testemunha em seus escritos.”
(Contra Heresias, 5.33.4)


A Obra Perdida e o Legado

Infelizmente, a maior parte da obra de Papias não chegou até nós, permanecendo apenas em citações fragmentadas. Ainda assim, sua influência é notável:

  • Foi um elo vital entre os apóstolos e os Pais da Igreja, transmitindo doutrinas e tradições fidedignas;

  • Ajudou a preservar o valor da tradição oral na era pré-canônica;

  • Confirmou a autoridade apostólica dos Evangelhos;

  • Estimulou debates eclesiológicos e escatológicos na Igreja primitiva.

Apesar das críticas de Eusébio (possivelmente por sua adesão ao milenarismo), Papias continua sendo uma figura respeitada por sua fidelidade ao testemunho dos apóstolos, especialmente João.


Conclusão

Papias de Hierápolis permanece como um dos mais antigos e preciosos elos com os apóstolos, testemunhando uma fase em que a fé cristã ainda era transmitida de viva voz, e os ensinos de Jesus circulavam nas comunidades antes de serem definitivamente registrados.

Sua dedicação à verdade, à tradição apostólica e à edificação da Igreja o colocam como um farol da ortodoxia na era pós-apostólica, e como uma fonte inestimável para quem deseja entender as raízes vivas do Novo Testamento.


Referências:

  • EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 1999.

  • GONZÁLEZ, Justo L. A Era dos Mártires. São Paulo: Vida Nova, 2011.

  • IRINEU DE LIÃO. Contra as Heresias. Porto: Edições Loyola, 2014.

  • CHADWICK, Henry. A Igreja Antiga. São Paulo: Paulus, 2001.

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